Perguntas Frequentes

Já faz algum tempo que venho respondendo perguntas no Ask.fm, onde elas podem ser feitas anonimamente, e descobri que essa é uma ótima maneira de tirar dúvidas sobre terapia, psicologia e outros assuntos relacionados, de uma forma bem direta e informal. Já são centenas de perguntas e respostas, e compilei aqui algumas das mais informativas.


GERAL
    1. Indicações de livros para estudantes de Psicologia.

      Oi, Marcel. Comecei a estudar psicologia faz pouco tempo e gostaria de indicações de livros ou qualquer outra fonte de informação que me ajudem a estudar fora de sala de aula. Pode ser um pedido meio invasivo da minha parte, mas gosto muito das suas respostas aqui e imaginei que pudesse ajudar

      Não é nada invasivo, se eu não tivesse percebido que algumas respostas aqui podem ser úteis, já tinha fechado esse Ask.

      O pior erro no início dos cursos que eu conheci é não haver uma matéria decente de "Introdução à Psicologia". Um panorama geral da coisa além da história das ideias (frequentemente aquele livro do João Claudio Figueiredo) e do fato de existirem tais e tais vertentes, com foco na clínica.

      Ao invés disso, os alunos são simplesmente expostos sem preparação nenhuma a conteúdos que se contradizem frontalmente. O resultado é que eles ficam confusos e se agarram à primeira abordagem com que simpatizem ou que lhes faça algum sentido, como um náufrago se agarra a uma boia em alto-mar, e não soltam mais, assumem aquilo como dogma. Por causa do caráter dos nossos cursos e da Psicologia no Brasil (junto de Argentina e França, um dos poucos lugares em que a psicanálise é levada a sério na universidade), essa boia costuma ser a psicanálise ou alguma abordagem humanista ou social de cunho ideológico. O aluno não chega na faculdade com condições de encarar psicologia experimental, behaviorismo, neurosciência, psicometria, e o curso não ensina a ele o valor dessas áreas, nem de outras como estatística e genética. Dificilmente ele vai sair de lá com interesse na vida acadêmica, ou preparado pra produzir conhecimento.

      Então, o que eu tenho pra sugerir ainda no começo do curso é pegar algum livro de introdução à Psicologia, tipo o Psicologia (David G. Myers). É caro, mas é um tremendo investimento, porque vai te dar uma boa noção da Psicologia além das limitações do curso. Se não for esse pegue um outro de autores estrangeiros. Tem um brasileiro, "Psicologias", de Bock, Furtado e Teixeira, mas ele traz justamente a abordagem limitada dos cursos daqui.

      Depois, você vai cansar de ver autores que tiram suas teorias do chapéu, de maneira nada científica. Mente e Cérebro - Dez Experiências Impressionantes Sobre o Comportamento Humano (Lauren Slater) é ótimo pra mostrar como a pesquisa séria produz conhecimento em Psicologia. Sobre isso, ainda, leia Hans Eysenck. Ele é mencionado naquele primeiro livro que eu indiquei, numa seção sobre a eficácia da psicoterapia, mas é um autor essencial pelas críticas que ele faz.

      Provavelmente você vai ter um semestre de biologia com neurociência misturado, mas não custa nada reforçar, com um livro como Como o Cérebro Funciona - Uma Análise da Mente e da Consciência (John Mccrone) ou o "Como a Mente Funciona", do Steven Pinker.

      Psicologia Social (David G. Myers) fala sobre essa área como ela é entendida no resto do mundo, que não tem NADA A VER com o que se chama de Psicologia Social aqui no Brasil. Esse é um ROMBO na nossa formação.

      Quando você aprender teorias de psicoterapia, vai ser do mesmo jeito fragmentado, te obrigando a escolher sem ter base de comparação. O Psicoterapias - Abordagens Atuais (Aristides Volpato Cordioli) ajuda muito a dar um contexto.

      Psicologia cognitiva (Robert J. Sternberg), a abordagem mais importante no resto do mundo, a maioria das pesquisas usa ela como base, mas muito negligenciada no Brasil.

      Psicologia Experimental (Kantowitz, Roediger, Elmes): como fazer pesquisa em Psicologia?

      Alguns livros sobre behaviorismo. É conhecimento INDISPENSÁVEL, a disciplina de linguagem, de análise de variáveis que ele te ensina é essencial pro bom cientista: Manual de Técnicas de Terapia e Modificação do Comportamento (Vicente E. Caballo), Análise Comportamental Clínica - Aspectos Teóricos e Estudos de Caso (Ana Karina C. R. De Farias), Compreender o Behaviorismo (William M. Baum).

      E, finalmente, algum livro sobre psicologia e evolução. Eu li "O Animal Moral", mas ele parece estar esgotado. Procure em algum sebo, mas se não achar, serve o "Tábula Rasa" do Steven Pinker.

      São livros caros e tal, mas eu empolguei e recomendei leituras pro curso todo, não só pro início. E o valor de uma boa formação é inestimável.

    2. Como encontrar teses e dissertações na internet?

      Marcel, se eu tiver o nome de um pesquisador/acadêmico e quiser ler a tese dele (e que não é brasileiro), consigo achar na internet? Se não, tenho que pedir direto pra universidade? Como funciona?

      Boa pergunta, eu também não sei, nem pras universidades brasileiras. Fiquei curioso e pus no Google: "USP dissertações teses"

      O primeiro hit já era a mina de ouro: http://www.teses.usp.br

      Depois, Unesp. Unicamp.

      E pra universidades estrangeiras? Tentei: "Harvard dissertations theses". Apareceu isso.
      ...que tem links pra bibliotecas de vários países.

      Só nessas quatro páginas já tem diversão pra família inteira.

      Acho que onde eu quero chegar é... tentou o Google? Ou o Google Scholar?

    3. Por que os japoneses cometem tanto suicídio?

      Por que os japoneses cometem tanto suicídio? (link)

      É uma outra cultura, com relações sociais muito mais formais. Existem expectativas sobre como se comportar na família, na escola, no trabalho, em cada etapa da vida. Existe uma mentalidade de sempre olhar as coisas pelo prisma da convivência dentro do grupo, e não do indivíduo, como acontece aqui.

      Então, se você erra, o erro não é só seu, mas do seu grupo. O filho indo mal na escola envergonha toda a família. O funcionário que erra envergonha todo o departamento, ou toda a empresa. É aquela metáfora da corrente: ela só é tão forte quanto o seu elo mais fraco.

      Do mesmo modo, claro, o sucesso de cada um também pertence ao grupo. As pessoas contam umas com as outras, nos altos e baixos.

      Daí a modéstia ao receber elogios e a ética de trabalho de tantos japoneses. Eles não enxergam isso como mérito próprio, e essa visão individualista é desencorajada lá.

      Quando algo sai errado, como no caso desse cientista, a pressão pode ser insuportável, e não é só um lance psicológico, mas que tem repercussões reais. E o suicídio não é só uma atitude desesperada, mas até honrada. Claro que toda cultura, toda sociedade, todo indivíduo, existe em fluxo permanente, entre outras coisas o suicídio como ato de contrição é menos comum hoje.

      Existe uma expressão, que me foge agora, que indica a cultura de não incomodar os outros desnecessariamente (desnecessariamente, já que eles são forçosamente "incomodados" o tempo todo pelo resto das suas obrigações sociais).

      Uma vez, num trem no Japão, eu estava sentado de frente para uma senhora, e vi um brinco dela cair no banco, sem ela perceber. Quando o trem parou na estação seguinte, ela se levantou e eu a abordei (Dizendo algo como "Com licença, seu brinco", o melhor que soube articular a situação em japonês.). Ela levou um susto por eu, um desconhecido, lhe dirigir a palavra. Como não entendeu o que se passava, peguei o brinco eu mesmo e lhe entreguei. Ela se tocou, e eu fiquei muito surpreso com a sua reação: ela não disse obrigado, "arigatou", mas se curvou muito e disse "sumimasen", que significa literalmente "com licença", ou "desculpe", e nesse caso tinha a conotação de "Desculpe por tê-lo incomodado deixando meu brinco cair e fazendo com que você o viesse me entregar".

      E algo que me disseram, mas eu nunca confirmei pra valer, é que lá existem poucos psicoterapeutas, e as pessoas resistem a procurar esse tipo de ajuda. Espera-se que você vença os problemas pela dedicação e determinação, imagino que admitir dificuldades emocionais seja encarado ainda mais do que aqui como uma fraqueza.

    4. Por que, geralmente, homens usam cabelo curto e mulheres cabelo longo?

      Por que, geralmente, homens usam cabelo curto e mulheres cabelo longo?

      Essa é uma daquelas questões em que biologia e cultura se interseccionam de tantos jeitos diferentes que não há como dar uma resposta definitiva.

      Mas, alguns fatores que contam: Cabelo longo, ondulado e lustroso é sinal de boa saúde e de status social, já que doenças e qualidade da alimentação alteram o brilho e a qualidade dos fios, e dependendo da vida que você leva, não consegue manter eles soltos e bem tratados.

      Além disso, o cabelo reflete nossa idade e saúde. E, portanto, do ponto de vista evolutivo, reflete nosso potencial reprodutivo. Mulheres jovens tendem a usar ele comprido como um sinalizador importante dessas características.

      Tanto é que, repare: mulheres mais velhas, pra quem esse tipo de sinalização sexual vai perdendo a importância, tendem a usar cortes mais curtos e discretos; e raspar os cabelos, negando as convenções de feminilidade, é um sinal bem comum de rebeldia para mulheres.

      Nos homens, eu acho que o cabelo curto tem mais a ver com praticidade, já que historicamente são eles que se dedicam ao trabalho intenso. E também tem a ver com, digamos, a aceitação do contrato social. O homem barbudo e de cabelo comprido tem um ar perigoso, selvagem, enquanto o homem de cabelo curto e barba feita tem aparência "domesticada", "civilizada", e, portanto, supostamente com os instintos todos sob controle.

      Então, repare: instituições que exigem ordem e obediência, como o exército, controlam com cuidado o corte e o penteado dos homens. Isso é o que dá pra dizer de mais universal.

      O resto são permutações culturais.

    5. A educação sexual nas escolas aumentou os casos de gravidez na adolescência?

      Não foi a educação sexual nas escolas que aumentou os casos de gravidez na adolescência?

      Não, claro que não.

      Eu lia essa acusação em artigos sobre os anos 60 e 70, não achei que fosse dar de cara com ela assim, ao vivo.

      Certas mudanças na sociedade provocam reações bem extremas, bem irracionais, histeria, pânico moral, caça às bruxas... e nem sempre vindo só dos conservadores.

      Tipo a epidemia de denúncias de abuso sexual envolvendo rituais satânicos em creches nos EUA, nos anos 80. Foi quando a participação das mulheres no mercado de trabalho bateu 50%, e pela primeira vez pra muitas delas veio a necessidade de deixar os filhos com pessoas desconhecidas. A ansiedade provocada por isso fez com que as acusações mais absurdas fossem levadas a sério, e as creches fossem o bode espiatório, a válvula de escape pra essa ansiedade e sentimento de culpa das mães por ficarem longe dos filhos.

      A mesma coisa aconteceu com a educação sexual nas escolas. Ela surgiu porque já haviam muitos casos de gravidez na adolescência e de DSTs. Falando dos EUA, que disponibilizam mais dados, olha esse gráfico, mostrando a ocorrência de gravidez na adolescência ao longo do tempo.

      O aumento nos casos até o fim dos anos 60 coincide com uma infinidade de transformações sociais. Crescimento das cidades, ida e volta de soldados de guerras na Europa e Ásia, movimentos de direitos civis, ganho de autonomia por parte das mulheres, movimento hippie, e no geral uma maior liberalização da sociedade, muito inclusive a respeito de sexo. Até essa época eram comuns ideias ridículas, como a de que masturbação fazia mal (os sucrilhos Kellogg's e os grupos de escoteiros foram criados pra combater a masturbação).

      Então, aqui, houve uma reação dos conservadores (histeria, pânico moral, etc), por causa de todas essas mudanças culturais, mas que tinha como bode espiatório a educação sexual. Eles preferiam acreditar que os adolescentes faziam sexo porque eram expostos a isso na escola, e não por serem... adolescentes. Se fosse simples assim, quantos mais deles não deveriam ter interesse em ciência e literatura clássica...

      Agora, a queda dos casos teve certamente a ver com a educação sexual, com campanhas, com uma maior abertura pra se falar do assunto e disponibilidade de informações pro público.

      Uma grande evidência de que o contexto sóciocultural influencia muito em problemas como gravidez na adolescência está aqui.

      Os estados em verde são os que têm mais casos, e não coincidentemente são os mais religiosos, mais conservadores, que mais resistem à educação sexual nas escolas. São aqueles onde é comum pregar a abstinência. É a abordagem da hipocrisia.

      Os estados em azul são os que têm menos casos, às vezes menos da metade dos verdes, e não coincidentemente são os mais liberais.

      Existe uma relação direta entre educação, lidar naturalmente com o assunto, e menor incidência de gravidez indesejada e doenças.

    6. Não é muito egocentrismo os animais domésticos existirem apenas como companhia para o ser humano?

      Não é egocentrismo do ser humano o fato de animais domésticos existirem somente pra fazer companhia a ele?

      A domesticação mudou a própria natureza dos cachorros.

      Tem um experimento famoso iniciado por um geneticista russo chamado Dmitry Beliaev, em que, numa população de raposas, ele cruzava sucessivamente só aquelas que, sem treinamento nenhum, se aproximavam e se mostravam mais amigáveis com os seres humanos, deixando de lado aquelas que mordiam sua mão ou se afastavam quando ele se aproximava. Depois de poucas gerações, uma grande proporção delas se comportava praticamente como cachorros, abanando a cauda quando uma pessoa se aproximava, acompanhando ela em passeios, e até pulando no colo para brincar.

      Se isso aconteceu com um animal selvagem em cinco, dez gerações, imagine então os cachorros, depois de milênios de domesticação e cruzamento seletivo (apesar de não intencional).

      Os cachorros, mais ou menos assim como os seres humanos, procuram se encaixar numa organização social, numa "família". A cachorra da minha irmã, já velhinha e sem enxergar, por causa de uma doença genética comum na linhagem dela, "me adotou" depois que minha irmã começou a trabalhar e passar o dia inteiro fora, e não sai de perto de mim. Quando saio de casa, ela fica de plantão na porta da frente, esperando até eu voltar. Alguém poderia dizer que eu a condicionei dando comida, mas não sou eu quem serve as refeições dela. Só faço companhia e dou atenção.

      Então, do ponto de vista de um cachorro, e também um gato, imagino, ele é só mais um membro da família, tem uma relação muito próxima, íntima, intensa, com as pessoas próximas dele. Uma vez domesticado, ele precisa dos nossos cuidados, e a companhia é uma coisa mútua. Eu até concordo se alguém disser que o processo de domesticação é egocêntrico, mas a coisa muda depois disso, porque a natureza do animal muda.

      Não sei o que dizer sobre ratinhos, peixes, pássaros, tartarugas, no entanto.



TERAPIA
    1. Até onde vai a confidencialidade em terapia?

      Até onde vai a confidencialidade em terapia? Sempre fui muito fechado e detesto a sensação de estar causando preocupação ou dando trabalho pra alguém, então sempre procurei resolver tudo sozinho e fazer as coisas de modo perfeccionista pra não deixar abertura pra incomodar ou ser incomodado. Sei que isso em si já é um problema, queria buscar ajuda, não me sinto bem já tem alguns anos e inclusive tenho às vezes pensamentos suicidas. Posso falar abertamente disso e ter a privacidade assegurada? Porque o problema seria exatamente ter alguém externo sabendo disso, entende? Obrigado.

      A relação terapêutica, inclusive pra poder funcionar, é íntima e envolve grande confiança por parte do paciente na idoneidade do terapeuta, então violar a confidencialidade (que está prevista no código de ética do psicólogo) é uma transgressão *gravíssima*.

      A gente fica sabendo de problemas com o Conselho de Psicologia, como o proselitismo religioso da Marisa Lobo, e uso de técnicas desautorizadas (terapia de vidas passadas, etc.), mas nunca ouvi falar de violação da confidencialidade, que deve ser algo bem raro.

      Mesmo com crianças, elas são asseguradas de que tudo que falam dentro da sessão vai ser mantido em segredo dos pais. O terapeuta vai falar das condições da criança pra eles, mas não vai reproduzir detalhes da fala.

      Existem duas exceções a isso: Uma é pesquisa acadêmica, em que, caso o paciente concorde, outros psicólogos podem ter acesso a registros do caso para colher dados. Mas todo profissional que tenha acesso a esse material está, também, obrigado à confidencialidade, sob risco das mesmas penas. O meu TCC, por exemplo, envolve uso de vários registros. Isso é muito comum em clínica-escola, já que a contrapartida do atendimento gratuito é contribuir com a formação dos alunos e com pesquisa.

      A outra exceção é se o psicólogo considera que o paciente corre ou oferece risco iminente, à própria vida ou a de terceiros. Nesse caso, ele tem outra obrigação, que é zelar pela vida, e pode avisar algum familiar, talvez até reter o paciente no consultório até que alguém chegue lá pra acompanhá-lo. Mas, muito obviamente, este é um caso extremamente raro.

    2. É possível se curar da fobia social?

      Como vc se curou da Fobia social? Eu tenho isso desde 6 anos, agora tenho 20, só procurei tratamento agora, mas parece que pode amenizar, não é? Mas cura total acho muito difícil.

      Terapia (cognitivo-comportamental), e remédio, nessa ordem. Saber de onde veio, como funciona, e como lidar, e tomar o remédio pra perder os sintomas físicos.

      Sobre a cura total, depende da pessoa e do problema, e tem também um aspecto mais filosófico envolvido. Assim como você nunca vai se livrar da memória e das emoções que, sei lá, a comida da sua avó evocam, talvez você nunca se livre das cicatrizes emocionais causadas por esses problemas, e provavelmente nunca vai se livrar também das cicatrizes causadas pelas experiências que causaram esses problemas. Mas, assim como em qualquer outro aspecto da vida, nós vamos ao encontro da felicidade possível.

    3. Qual a forma de terapia mais bem-estudada para distúrbios como a depressão?

      Olá. Qual a melhor forma de tratamento para uma pessoa que sofreu depressão aos 12 anos devido ao medo da morte, e que ainda com 17 não consegue ver cenas relacionadas a terror/tortura/morte que já começa a sentir tontura, a pressão tende a diminuir e em casos sérios pode até desmaiar?

      A forma de terapia mais bem-estudada pra vários distúrbios psicológicos, e que oferece os resultados mais claros e consistentes, portanto é a mais recomendada por órgãos oficiais como o serviço de saúde público da Inglaterra, é a terapia cognitivo-comportamental, TCC, no Brasil, CBT, em Inglês.

      Aqui um artigo comentando várias metanálises sobre a eficácia da TCC: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3584580/

      "CBT is arguably the most widely studied form of psychotherapy. We identified 269 meta-analytic reviews that examined CBT for a variety of problems, including substance use disorder, schizophrenia and other psychotic disorders, depression and dysthymia, bipolar disorder, anxiety disorders, somatoform disorders, eating disorders, insomnia, personality disorders, anger and aggression, criminal behaviors, general stress, distress due to general medical conditions, chronic pain and fatigue, distress related to pregnancy complications and female hormonal conditions."

      "The efficacy of CBT for anxiety disorders was consistently strong, despite some notable heterogeneity in the specific anxiety pathology, comparison conditions, follow-up data, and severity level. Large effect sizes were reported for the treatment of obsessive compulsive disorder, and at least medium effect sizes for social anxiety disorder, panic disorder, and post-traumatic stress disorder."

      "Various CBT techniques for specific phobia (systematic desensitization, exposure, cognitive therapy) were as effective as applied relaxation and applied tension, producing effect sizes in the large range, with long-term maintenance of gains (Ruhmland & Margraf, 2001)."

    4. Fiz uma primeira sessão de terapia e a sensação é de que não consegui falar nada com nada, isso é normal?

      Marcel, fiz uma 1ª sessão de terapia e a sensação é que não consegui falar nada com nada, como se meu raciocínio estivesse meio perdido, isso é normal? A impressão que eu tenho é que só consigo pensar e me expressar direito por escrito, eu devo falar isso quando voltar? Obrigado.

      Sim, é normal, não esquenta. Comente com o terapeuta na próxima sessão que você fica meio confuso e nervoso falando, pra ele estar ciente e você ficar mais tranquilo, mas saiba que, a menos que isso seja uma característica dos seus problemas, caso no qual vai ser explorado mais a fundo, provavelmente é algo que vai passar logo.

      Não que seja necessariamente o seu caso, mas é só na terapia que muita gente vai ter a primeira oportunidade de falar abertamente sobre si próprio, sobre seus medos e angústias. Isso é uma coisa que pode gerar muita ansiedade.

    5. Qual a diferença entre psicólogo e psiquiatra?

      Qual a diferença entre psicólogo e psiquiatra?

      O psiquiatra faz o curso de medicina, ele é um médico que fez especialização em psiquiatria. Na prática, ele é o profissional que pode receitar remédios, como antidepressivos e tal.

      Se quiser, ele pode fazer uma outra especialização, e também se tornar um terapeuta, mas poucos fazem isso.

      O psicólogo faz o curso de psicologia. Ele trabalha em várias áreas, mas na clínica, seu papel é o de terapeuta.

      Em alguns países, ele pode fazer uma pós-graduação e se habilitar a receitar remédios, mas no Brasil essa possibilidade não existe.

    6. Um psicólogo pode substituir um psiquiatra?

      Um psicólogo pode substituir um psiquiatra?

      Em alguns países, o psicólogo pode fazer uma pós-graduação e se habilitar a receitar remédios. Como o Brasil NÃO é um desses países, nesse sentido do medicamento, o psicólogo não substitui o psiquiatra.

      Por outro lado, como o psiquiatra não necessariamente é também um terapeuta (e eu não tenho dados a respeito, mas me parece que poucos são as duas coisas), o psiquiatra também nem sempre prescinde do psicólogo pro tratamento do paciente.

      Então, a atução dos dois profissionais costuma ser complementar.

    7. É normal que minha primeira consulta ao psiquiatra tenha durado menos de 5 minutos e eu já ter saído com uma receita?

      É normal que minha primeira consulta ao psiquiatra tenha durado menos de 5 minutos e eu já ter saído com uma receita?

      É normal no sentido de ser comum, infelizmente, mas definitivamente não é certo. Mesmo que você tenha feito a consulta indicado pelo seu terapeuta, o psiquiatra tem a obrigação de te conhecer e fazer uma entrevista com você pra ter uma boa noção do seu caso, antes de receitar qualquer coisa.

      Mas a verdade é essa, muitos psiquiatras são só farmacêuticos sem estoque.

    8. Preciso de ajuda profissional, mas tenho vergonha de dizer que meu estado é por causa do fim de um namoro. O que faço?

      Estou passando pelo pior momento da minha vida, acho que é depressão mesmo, pois não consigo mais realizar minhas atividades básicas, e tudo isso por causa do fim de um namoro. Não procuro psicólogo por vergonha de chegar lá dizendo que meu estado deplorável se deu por conta de uma ex. O que faço?

      Não existe nada de vergonhoso em ficar abalado por causa do fim de um namoro.

      Nem com outras coisas, como a perda de um emprego, a falta de perspectivas, a depressão pura e simples.

      Uma coisa muito importante quando você pensa em procurar terapia é saber que o psicólogo não está lá pra te julgar, julgar seus motivos nem suas emoções. Ele vai te aceitar nos seus termos. O trabalho dele é te compreender e te ajudar.

      Tipo, quando eu procurei terapia pela segunda vez, foi exatamente por causa do fim de um namoro. Eu tinha outros problemas, claro, e durante o processo eles foram aparecendo, mas o que me levou a procurar ajuda foi esse acontecimento, que me deixou bem mal. Cheguei lá pro terapeuta e disse isso, na lata.

      Então, o que você precisa fazer é entender e aceitar que não tem nada de errado em entrar em depressão por causa do fim do namoro. É um motivo perfeitamente válido, e até comum, pra ir procurar ajuda, porque momentos difíceis assim acabam trazendo à tona outras questões nossas.

    9. Meu amigo postou no Facebook fotos dele se automutilando. Eu não sei o que fazer. Chegar até ele com um tom de preocupação, dizendo pra buscar ajuda, não iria soar meio paternalista?

      Meu amigo postou publicamente no Facebook fotos dele se automutilando. 4 pessoas curtiram, e algumas comentaram. Eu não sei o que fazer. Chegar até ele com um tom de preocupação, dizendo pra ele buscar ajuda, não iria soar meio paternalista? Ao mesmo tempo, parece negligente não fazer nada...

      Um amigo meu frequentava um templo zen, e comentou comigo que o jornalzinho deles precisava de um editor.

      Eu sugeri que ele se oferecesse, já que estava tão envolvido com o templo e tinha editado tantas revistas antes. Faria aquilo com uma mão nas costas.

      Mas ele disse que estava indo lá justamente pra aprender o desapego, desinflar o ego e etc, e chegar botando banca de profissional ia muito ironicamente contra tudo isso.

      E eu respondi o seguinte: ele só tinha que se oferecer. Se colocar à disposição pra ajudar. Não tem nada de arrogante, de egocêntrico nisso, muito pelo contrário. Seria ruim se ele fizesse questão de assumir o jornalzinho, se achasse que só ele seria capaz de fazer aquilo, que nenhuma outra pessoa faria direito.

      É a mesma coisa aqui. A sua vontade de ajudar é genuína. Se esvazie de sentimentos que não têm nada a ver com isso, e se coloque à disposição dele. Só estique a mão. Vai depender dele aceitar essa ajuda ou não.

      Claro, só a sua boa-vontade não basta. Ele precisa ser encaminhado pra um profissional.

      Mas ter alguém como você por perto, alguém que se importe, não é pouca coisa.

    10. A partir de que ponto o medo da violência urbana precisa de ajuda psicológica?

      A partir de que ponto você acha que o medo da violência urbana é um caso para se buscar ajuda psicológica? Quando o medo não é "irracional" (a pessoa já foi vítima de várias formas), como a psicologia pode nos ajudar?

      Você está fazendo uma distinção didática, mas artificial. Existem pessoas que foram assaltadas e ameaçadas várias vezes e não foram muito afetadas por isso, e existem pessoas que não só nunca sofreram diretamente com esse problema como até vivem em lugares bastante tranquilos, mas têm dificuldade pra sair de casa por medo da tal violência urbana. Então, o encontro pessoal com a violência não é *necessariamente* a variável que vai determinar a realidade dela para cada pessoa. Para muitas, basta a narrativa social a respeito da violência.

      Isso sempre me lembra da vez que visitei Pomerode, em SC. O lugar é tranquilíssimo, alta qualidade de vida, baixos índices de violência. Num restaurante local, vi o jornal da cidade, e a manchete era: "Domingo Sangrento". E o texto falava sobre... adolescentes virando latas de lixo nas praças.

      Essa questão de como definir uma "normalidade" na região em que o caráter de cada pessoa (mais ou menos sensível a algo) se encontra com a realidade dos fatos (os índices de violência são altos ou não, já afetaram a pessoa diretamente ou não) me interessa demais.

      Tem a ver, inclusive, com a discussão sobre a campanha "chega de fiu-fiu". Para alguns, qualquer tipo de abordagem de uma pessoa desconhecida é assédio. Outros são capazes de diferenciar entre um elogio solto, uma cantada, o assédio, o abuso.

      Em qual dessas posições está o "bom-senso"? Eu acredito que a pessoa que encara categoricamente qualquer abordagem como abuso é como a pessoa que vive em função do medo da violência. Ou seja: onde deveria haver uma gradação, uma escala de tons de cinza, existem só o preto e o branco.

      Quanto à ajuda psicológica, depende de como o medo afeta o cotidiano da pessoa, e de como ela tolera isso. É irracional colocar blindagem no carro? Em São Paulo, em certas regiões, para certas pessoas, nem um pouco. Já em Pomerode...

      O que o terapeuta vai fazer é ajudar a pessoa a lidar com a parte irracional do medo, de modo que ela possa agir, reagir, se adaptar, aos dados da realidade, e não aos fantasmas que existem só na sua cabeça. Se ela foi vítima, pode querer mudar seus hábitos, mas é importante que faça isso racionalmente, e não de modo a só executar rituais para acalmar medos interiores. O mais importante, claro, é ela trabalhar as emoções disfuncionais que o assunto traz à tona, para que elas não acabem guiando a vida da pessoa.

      Muitos indivíduos que se sentem acossados e desprovidos de agência por causa da violência movem para um extremo do espectro político, e vêm daí frases como "Direitos humanos para humanos direitos". (aliás, outro paralelo com o lance do fiu-fiu, quando as pessoas eliminam a complexidade da questão para agitar uma bandeira moralista e, assim, recuperar alguma sensação de agência). Em terapia, é comum encontrar sob esse posicionamento político medo e sensação de impotência.

    11. Vejo muitas reclamações de psicólogos que atendem por convênio em sites como o Reclame Aqui, o uso do convênio influencia na qualidade do tratamento?

      Marcel, pesquisando psicólogos ou clínicas que atendem convênio, tenho percebido muitas reclamações similares nos "reclame aqui" da vida: "parecem estar fazendo um favor, não me senti bem atendido, nada pontuais, quando encaminham pra psiquiatra exigem que seja pelos da própria clinica", etc. Você acredita que não pagar (ao menos diretamente) tem mesmo influência? Ou isso é um pouco da percepção "pé atrás" de quem busca? O quanto se gasta num psicólogo afeta muito a qualidade? Acha que tem um mínimo pra saber se realmente vale a pena uma clinica/psicólogo? Obrigado pela gentileza :)

      Olha, eu vivo criticando vários aspectos da profissão de psicólogo no Brasil, a formação, a falta de empenho em pesquisa, o comodismo e o pouco senso crítico a respeito das teorias. Mas, no geral, sei que os profissionais têm sempre o bem do paciente em vista.

      Só que como em qualquer outra área, na Psicologia você também vai encontrar um punhado de pessoas que agem de maneira errada, antiética, mesquinha.

      Então, não adianta romantizar. Não duvido mesmo que esses casos do "Reclame Aqui" sejam verdadeiros. O que eu digo é pra não confundir a profissão com o profissional.

      Se tiver problemas, denuncie, o Conselho Regional de Psicologia (CRP) existe pra isso.

      Mas, ao mesmo tempo, procure outro profissional, procure recomendações, tem muita gente muito boa por aí.

      Se alguém não vai atender bem o paciente de convênio, então que não faça convênio, ora.

      Não importam os termos do contrato, o valor da consulta, se é por convênio, se é gratuito, o profissional tem que ter EXATAMENTE A MESMA DEDICAÇÃO a todos os pacientes que estão ali na frente dele dentro do consultório.

      Existem ótimos terapeutas que estão começando agora a carreira, e por isso tendem a cobrar menos. Existem profissionais de grande reputação e muitos anos de experiência que trabalham também na rede pública. Existem as clínicas-escola, onde os alunos atendem sempre com muito empenho e recebem supervisão de seus professores.

      Então, não, o pagamento não determina o cuidado, a atenção que você vai receber. O que determina isso é a qualidade e a ética do profissional.

    12. O que um psicólogo recomendaria a um pessoa trans, que fizesse ou não a cirurgia de readequação sexual?

      Você, enquanto psicólogo, que tipo de recomendação faria a um trans, caso um te procurasse: o tentaria convencer de que ele é o que nasceu mesmo, que se vista da maneira como goste, mas que não apelasse pra nenhuma cirurgia de redesignação, ou o incentivaria, de certo modo, a ir atrás do que quer, até mesmo com relação a operação e tudo mais? Ou alguma outra coisa que não estas duas opções?

      Não é o papel do psicólogo dizer qual decisão o paciente deve tomar num caso desses.

      Ele precisa se informar com um médico de todos os detalhes dos procedimentos, talvez procurar o depoimento de outras pessoas que passaram pela mesma experiência, e se não conseguir se decidir, eu exploraria com ele as inseguranças, o aspecto emocional da coisa.

      Mas a função da terapia é buscar a independência, a autonomia do paciente, nunca aliviar o peso da responsabilidade que ele tem em tomar as próprias decisões.

    13. É possível alguém que estude psicologia resolver seus problemas sozinho, como uma auto terapia?

      Marcel, você acha possível alguém que estude psicologia resolver seus problemas sozinho, como uma auto terapia?

      Possível, sim, certamente. Agora, se é provável que funcione...

      É a coisa mais normal do mundo que os próprios psicólogos, por mais experientes ou capazes que sejam, passem por terapia, assim como médicos procuram outros médicos ao invés de diagnosticarem e tratarem a si próprios.

      Na maioria dos casos, nós estamos envolvidos demais com nós mesmos pra sermos imparciais.

      Uma pessoa pode ter lido tudo sobre o seu problema, e ainda assim não ser capaz de admitir que tem esse problema. Afinal, essa é a natureza das doenças psicológicas, elas afetam o nosso julgamento, principalmente os julgamentos a nosso próprio respeito, e portanto a nossa capacidade de agir sobre elas.

      Definitivamente, eu não recomendo. Uma coisa é você procurar dicas de como viver melhor, evitar se frustrar, usar melhor seu tempo, ter relações melhores com as pessoas. Mas se está falando em terapia... procure um profissional.

    14. Por que a pessoa desiste do tratamento com um psicólogo, e como o psicólogo encara essa pessoa?

      Por que a pessoa desiste do tratamento com um psicólogo? Poderia apresentar alguns motivos e como o psicológo encara essa pessoa?

      Vários motivos.

      Ela ainda não está pronta para encarar a terapia. Isso inclui ter dificuldade para confiar em outra pessoa, ou dificuldade para olhar para si própria, de admitir seus problemas. Não conseguir se comprometer com o processo, falta de iniciativa, não dar o devido valor à terapia, não se achar capaz de mudar.

      Pode ser responsabilidade do terapeuta, não ter criado um bom vínculo com o paciente, não se esforçar, não prestar atenção ao que é trazido para a sessão e ficar preso demais à teoria, usá-la como uma barreira para não entrar realmente em contato com as questões do paciente. Se recusar a avançar no tratamento, ou se recusar a ir um pouco mais devagar para poder trabalhar bem cada questão. Pode ser incompetência pura e simples.

      Como o psicólogo encara a pessoa... bom, como você pode ver, são vários motivos diferentes. Idealmente o psicólogo entende que as pessoas passam por momentos diferentes que interferem nas suas decisões, nos seus comportamentos. Idealmente ele sabe que a pessoa ter desistido não quer dizer que ela não seja capaz de mudar, pode ser questão de tempo, ou ela pode se dar melhor com outro profissional. Também idealmente, ele vai fazer uma autocrítica pra ver se poderia ter servido melhor aquela pessoa, pra ela não ter que ter se dado ao trabalho de começar uma terapia pra depois abandonar.

    15. Fiz pouco progresso na terapia, e ando com vergonha de ir ao meu psicólogo, o que faço?

      Ando com vergonha ao ir ao meu terapeuta. Fiz muito pouco progresso nesse 1 1/2 ano em que passo com ele e é triste ter de expô-lo aos mesmos problemas e fazê-lo dizer coisas semelhantes muitas vezes. Progredi com outros problemas, mas o problema central que me levou lá permanece pouco resolvido.

      Bom, fale isso pra ele.

      A parte do psicólogo no contrato terapêutico é ter expertise, interesse genuíno na sua melhora, acolhimento da sua pessoa sem fazer julgamentos, e, muito importante nesse seu caso, flexibilidade pra se adaptar às circunstâncias, usar outras técnicas e vias de investigação e intervenção quando as primeiras não dão resultado.

      A parte do paciente é a disposição de se envolver profundamente com o processo, e ter abertura, no sentido de não esconder emoções, pensamentos, nem fatos relevantes.

      E essa sua frustração é muito relevante, e, nesse período da terapia, também é muito comum.

      Às vezes acontece do paciente falar algo tentando agradar o terapeuta, tipo dizer que está melhor, sem isso ser verdade.

      Também acontece dele não falar algo por medo de deixar o terapeuta triste ou decepcionado. Mas os sentimentos do terapeuta não estão em jogo, aqui. Ele, em tese, está preparado pra lidar com casos bem mais difíceis ou delicados do que esse, envolvendo transferência, contra-transferência, resistência, não-adesão...

      Então, nesse caso, a sua parte é expor esses sentimentos de frustração e vergonha pro psicólogo, pra que ele possa fazer a parte dele.

    16. Tenho medo de começar a tomar algum remédio psiquiátrico e ficar dependente dele. Isso pode acontecer?

      Acho que o maior medo de começar a tomar remédio é ficar dependente dele, não conseguir mais viver sem. Minha sogra, por ex, tomou por anos e anos, junto com terapia, e não avançou muito na melhora da depressão, mesmo trocando de remédio. A possibilidade de largar varia muito pra cada pessoa?

      Vamos falar dos antidepressivos SSRI, tipo fluoxetina. Eles não geram vício. Você não deve largar sem orientação médica, de uma hora pra outra, porque isso causa uns sintomas bem desagradáveis. Mas se for diminuindo aos poucos não tem problema nenhum, não existe síndrome de abstinência nem o desejo do remédio, como acontece com álcool, cigarro e outras drogas.

      Fora isso, pode acontecer da pessoa precisar continuar tomando o remédio por toda a vida pra manter o ganho que ela teve nos seus problemas psicológicos. Com depressão e ansiedade muito fortes, ou se a pessoa tem algo como transtorno bipolar, se ela parar de tomar o remédio vai voltar ao estado em que estava antes. E essas coisas, sem tratamento, tendem a piorar com o tempo.

      Outra coisa que pode acontecer é uma dependência psicológica, no sentido da pessoa ter medo de parar mesmo que o terapeuta ou o psiquiatra ache que ela já pode encerrar esse tratamento. Mas aí é algo irracional, pra ser tratado em terapia.

      Quanto a sua sogra, infelizmente existem casos assim. Às vezes o psiquiatra não encontra o remédio certo, principalmente se existirem comorbidades, outros problemas além da depressão.

      Mas é por isso que eu recomendo que procure um psicólogo primeiro, faça terapia, e se conhecendo melhor, conhecendo melhor seus problemas, se o terapeuta recomendar, decida se vai tomar.

      Pensar se vale a pena ou não antes de começar esse processo é como olhar pro mundo através de uma forte névoa. Você não enxerga com nitidez, nem muito longe.

    17. Me sinto deprimido e cansado o tempo todo, adianta iniciar uma terapia sem a menor motivação para mudar?

      Marcel, me sinto deprimido e cansado o tempo todo, sem a menor vontade de fazer qualquer coisa fora da minha rotina de casa-escritório, me parece um esforço imenso coisas como ir à padaria, ainda que soe como preguiça ou algo assim. Adianta iniciar uma terapia sem a menor motivação para mudar?

      Existe uma variável difícil de quantificar, que é quão pronta a pessoa está pra entrar em terapia. Como eu disse na penúltima questão, você precisa estar disposto a se envolver no processo todo. Se não tiver isso, esse pré-requisito, se ficar faltando às sessões, se não se abrir e tal, não tem muito que o terapeuta possa fazer.

      Dito isso, você dizer aqui que não tem motivação pra mudar não quer dizer que não esteja pronto pra encarar a terapia agora. Só vai descobrir tentando, e eu recomendo que tente.

    18. Tenho medo de ir fazer terapia e ela não ter fim, porque o terapeuta poderia dizer que tenho mais coisas para resolver. Isso acontece com frequência?

      Tenho medo de ir fazer terapia e ela não ter fim, ou seja, eu ficar indo indefinidamente, porque o terapeuta poderia dizer que tenho mais coisas para resolver. Como não cair nessa? São muitos os psicólogos que fazem isso?

      Existem dois riscos simétricos e opostos sobre a duração da terapia, e ambos decorrem de o psicólogo se apoiar na teoria e no método pra se distanciar do paciente, ao invés de se envolver de verdade com o caso.

      O primeiro é esse que você citou, a terapia não acabar, e pior, não avançar, e é comum na psicanálise. O Albert Ellis escreveu uma crítica forte a isso em 1968, mas podia ter sido hoje:

      "Psychoanalysis sidetracks health-seeking individuals verbally by encouraging them to concentrate on innumerable irrelevant events and ideas: such as what happened during their early years, how they came to have an Oedipus complex, the pernicious influence of their unloving parents, what are the meanings of their dreams, how all-important are their relations with the analyst, how much they now unconsciously hate their mates, etc."

      http://www.sagepub.com/personalitytheoriesstudy/05/resources2.htm

      Ou seja, uma recusa em ser específico ao abordar e tratar os problemas presentes da pessoa.

      O segundo risco está em abordagens mais pragmáticas como TCC, e é exatamente o contrário: o psicólogo seguir à risca um protocolo de terapia de, sei lá, 8 sessões, como se o processo todo fosse uma linha de montagem: hoje fazemos isso, semana que vem aquilo, e no final acabou, tchau.

      Ou seja, ele ignora o real estado do paciente, se está melhorando ou não, se aquilo tudo faz sentido pra ele.

      Esses dois casos acontecem? Infelizmente, acontecem. Com que frequência? Não sei.
      Tirando plano de saúde, em que as sessões são limitadas, tudo depende da capacidade e da ética do profissional, muito mais do que da abordagem.

      Terapia não é um lance trivial. Cada caso é um caso. Não dá pra dizer de antemão quanto tempo o processo vai durar.

      Às vezes ela não avança por resistência do paciente. Ou então ele precisaria começar a tomar um remédio pra diminuir os seus sintomas o suficiente pra eles serem tratados com alguma eficiência.

      Perguntei certa vez pra uma professora, terapeuta muito experiente de TCC, qual a duração média dos casos dela. Ela não soube responder, nunca tinha prestado atenção nisso. Insisti e pedi um chute. Chutando (então não leve muito a sério) ela disse que em talvez 50% dos seus casos o atendimento durasse até um ano, 25% por volta de dois ou três anos, e 25% são casos bem complicados que continuam por muito mais tempo.

      Como em muita coisa na vida, você precisa se equilibrar entre a assertividade e a paciência. Exponha essa preocupação pro psicólogo, comente com ele o que está achando. Fale das suas expectativas. Mas também entenda que terapia não é uma linha de produção. Precisa ser vivida um dia de cada vez. Eu adoraria se fosse fácil resolver nossos problemas emocionais, nossas dores, com procedimentos simples e rápidos, mas não é essa a realidade. Você precisa estar disposto a se envolver no processo.

      E, bom se você achar que o método não é satisfatório, ou o terapeuta não está envolvido, troque. É o seu bem-estar que está em jogo.

    19. O psicólogo poderia sugerir que um paciente abandone a sua religião?

      Marcel, supondo que você atenda um paciente que é religioso, você o faria "largar" a religião dele ou sugerir algo do tipo?

      Não. Isso seria tão errado quanto tentar mudar a orientação sexual de alguém.

      Por outro lado, a maneira como essa religiosidade é vivida ou exercida tem muito a ver com a saúde mental da pessoa. Então, a questão não seria no que ela acredita, mas como ela age relativo a essa crença.

      Por exemplo: "anxious attachment to God is positively correlated with psychiatric symptoms, while secure attachment to God bears a modest inverse association with these outcomes (when anxious attachment is excluded from the model). Results also show that prayer is inversely associated with symptoms of anxiety-related disorders among individuals who have a secure attachment to God, but positively associated with these outcomes among those who have a more insecure or avoidant attachment to God."

      http://socrel.oxfordjournals.org/content/early/2014/02/25/socrel.srt079

    20. Como o terapeuta pode ser empático sem se envolver demais com o paciente?

      Como um terapeuta ou psicólogo pode ser ao mesmo tempo empático mas sem se envolver demais com o paciente?

      Essa questão se aplica a várias profissões. Assistente social, médico, advogado, professor, sempre que você entra em contato com pessoas num momento de fragilidade, como separar as coisas?

      Tem vários aspectos envolvidos. A formação na faculdade, você aprende a teoria, faz estágio supervisionado pelos professores, é avisado dos problemas que podem acontecer. Então, tem um preparo pra encarar o que vai aparecer pela frente.

      A ética profissional. Tem a ver com a formação, você sabe que o melhor que pode fazer pelo paciente é seguir os protocolos da terapia. Se falar a menos, por receio, dó, se falar a mais, por querer intensamente que a vida da pessoa mude, se se deixar envolver com alguma expectativa equivocada dele... não vai estar servindo o paciente da melhor maneira possível, pode até prejudicar ele.

      E isso envolve também o terapeuta estar com a própria vida emocional sob controle. Às vezes o paciente espera que o terapeuta ocupe um papel na sua vida que não é aquele do contrato terapêutico, e se o profissional não for uma pessoa equilibrada, capaz de manter a devida perspectiva, pode reagir de diversas maneiras inapropriadas.

      Não sei se isso tudo parece abstrato demais, mas é o tipo de coisa que fica perfeitamente clara quando você começa a atender.

    21. O Conselho Federal de Psicologia não errou em impedir que homossexuais procurem assistência para sua condição?

      O Conselho Federal de Psicologia não fez errado em impedir que homossexuais procurem assistência psicológica para sua condição? Ninguém ia obrigar ninguém a procurar tratamento, Marcel.

      Não, por dois motivos:

      Primeiro, se por "assistência psicológica para sua condição" você está falando em "terapia de conversão", pra pessoa mudar de orientação sexual, isso não existe. Digo, muita gente já se propôs a criar algo assim, mas não há resultado crível, e os processos propostos resultam invariavelmente em abuso físico e emocional, em trauma. Aquele escroque do John Money, com o tratamento criminoso que deu pro David Reimer, basicamente provou o quanto é errado tentar mexer com a identidade sexual de alguém.

      Analogamente, nos anos 60 e 70, com a popularização de cultos e seitas religiosas estranhíssimas, tentou-se também criar terapias pra pessoa largar o fanatismo, com resultados igualmente ruins.

      A terapia não serve pra reconstruir a pessoa de acordo com algum ideal externo. Serve pra ela ser melhor quem verdadeiramente é.

      Segundo, porque esse tipo de "assistência psicológica" estava sempre fortemente carregado de ideologia religiosa, e tinha um aspecto nada discreto, nada velado de proselitismo. Outra coisa proibida na profissão.

      Finalmente, ninguém está impedindo os homossexuais de procurarem ajuda pra viverem melhor sendo quem são, principalmente numa sociedade que em vários aspectos ainda os trata tão mal. Pelo contrário, é parte importante do trabalho do psicólogo ajudar essas pessoas.

    22. Sou um homem depressivo, e estou preocupado com meu grau de agressividade. Como faço pra me acalmar?

      Sou um Homem agressivo e depressivo, 26 anos, e estou preocupado com meu grau de agressividade. Cuido de uma senhora idosa e às vezes tenho lapsos de vontade de agredi-la e, my god, nem acredito que tô confessando isso, mas tô com vontade de matá-la. Como faço pra me acalmar?

      Olha, esses são problemas sérios que te acompanham, que te causam angústia, e que te afetam no seu trabalho. Não tenho muito a dizer além de que você precisa consultar um profissional. No mínimo, comece procurando o plantão de uma clínica-escola, as faculdades de Psicologia oferecem atendimento gratuito. Apesar de eu não saber como estão agora, no fim do ano.

      Bom, ok, tenho outra coisa pra dizer: todos nós temos impulsos violentos de vez em quando, e mesmo quem nunca teve está sujeito a um dia ter. Principalmente quando estamos sob muito stress, muita pressão de vários lados, é perfeitamente normal ter essa fantasia de querer matar alguém, e não tem nada de mais nisso, porque pensamento, fantasia, emoção, não é ação.

      Não existe crime de pensamento (apesar de sempre haver quem tente criar isso).

      Do mesmo modo, depressão é um problema comum. E a impaciência, o "pavio-curto", e mesmo a agressividade são, contra-intuitivamente, eu sei, características de muitas pessoas deprimidas. Então, entendo que te cause constrangimento dizer essas coisas, mas saiba que isso por que você está passando é algo que terapeutas veem o tempo todo no consultório, e o que você realmente precisa fazer é procurar ajuda. Não existe nada de imoral ou estranho no seu problema.

    23. Faz anos que sinto que preciso de ajuda psicológica. Mas é um esforço gigante até ligar pra pedir uma informação, quanto mais para marcar uma consulta.

      Marcel, apesar de ser novo (tenho 26) faz anos que sinto que preciso de ajuda psicológica, já ouvi até de médicos, desde os 14 anos, e nunca consegui sair do saber que preciso, é como se estivesse numa depressão eterna (ainda que manejável). Pelo tanto que já li a respeito me identifico muito com coisas como distimia e personalidade esquiva. É um esforço gigante até ligar pra pedir uma informação, então quando eu penso em terapia eu já temo a dificuldade de não me identificar com o processo ou o profissional e isso atrapalhar de vez e eu me "afundar". Além disso, quando tento mostrar que gostaria de ajuda eu me sinto desestimulado porque parece que ninguém percebe o peso desse troço, então te pergunto (por favor): alguma dica de como conseguir quebrar esse bloqueio e medo de não dar certo e pelo menos tentar alguma coisa?

      Pergunte como achar melhor, só tome cuidado pra pergunta não esgotar o limite de caracteres pra resposta. :P

      Bom, eu te entendo perfeitamente, porque tenho distimia, e tinha um tanto de fobia social.

      De fato, é difícil as pessoas entenderem o peso de distúrbios psicológicos assim, porque eles são basicamente invisíveis, e alguém pode funcionar mais ou menos normalmente com eles, ainda que a um grande custo.
      E é difícil você mesmo se abrir e tentar explicar, principalmente quando existem outras comorbidades envolvidas.

      A depressão distorce a perspectiva, o julgamento da pessoa sobre si mesma, sobre os outros, sobre as possibilidades do mundo. Então, realmente, até um telefonema vira uma dificuldade enorme.

      Por causa disso, a outra incompreensão nessa história parte do próprio depressivo. Ele muitas vezes não vai atrás da ajuda que está ali, esperando por ele, e ele não enxerga que é possível melhorar.

      Isso exige um esforço inicial. Fazer esse telefonema. Agendar e ir até uma consulta. Entenda que os terapeutas, as suas secretárias, a equipe de uma clínica-escola, está acostumada a lidar com pessoas com vários tipos de problemas, inclusive problemas muito parecidos ou exatamente iguais aos seus. Ou seja: outras pessoas passam por essa mesma experiência sua, você não está sozinho nela.
      E esses profissionais geralmente são extrememente receptivos.

      Então, bom, respire fundo e faça esse telefonema, marque uma consulta. Não pense muito.

      Ou então procure o serviço de aconselhamento psicológico de uma clínica-escola em alguma universidade. Simplesmente apareça lá, pergunte como funciona, que hora você precisa estar lá. Depois, eles mesmos podem te encaminhar para outro terapeuta para um tratamento mais longo.
      Até hoje me admira o quanto a equipe da USP era simpática e receptiva com o público.

      Agora, quanto a não se identificar com o processo ou o profissional, esse risco sempre existe, mas tem uma coisa: uma vez que você inicia o processo e ele perde aquela sombra de coisa desconhecida, e você se livra do bloqueio inicial, fica mais fácil trocar de terapeuta se algo der errado.

      Qualquer passo que você der nessa direção, de fazer algo, de procurar ajuda, já vai servir de encorajamento para você dar os passos seguintes. O importante é começar o processo.

    24. Preciso de ajuda psicológica por diversos motivos (inclusive pensar em suicídio), mas tenho uma dificuldade enorme de confiar em qualquer pessoa.

      Preciso de ajuda psicológica por diversos motivos (inclusive pensar em suicídio), resumindo, acho que preciso MESMO. O problema é que tenho uma dificuldade ferrada de confiar em qualquer pessoa, nessa fico caçando informações sobre profissionais e no final acho que não é pra mim ou valha a pena. Então, sei que é um espaço curto aqui, mas você tem alguma dica pra quebrar esse bloqueio e pelo menos conseguir tentar algo? Será que um psiquiatra seria melhor pra começar? (sinto mais confiança numa base mais "racional", não dá pra explicar bem aqui, mas é meio isso). Enfim, obrigado mesmo!

      Tem alguém que possa marcar a consulta pra você pra diminuir a chance de você desistir? Pais, algum amigo? Se ninguém sabe dos seus problemas, talvez se abrir com uma pessoa dessas seja um bom começo.

      Fora isso, sei que parece redundante, mas a única coisa que eu posso dizer aqui é que você pare de ficar pensando e simplesmente pegue um número, telefone e marque a consulta. Mesmo que por algum motivo queira trocar de profissional depois, é importante iniciar esse processo. Psiquiatra, psicólogo, o que você preferir. Os psicólogos cognitivos e os analistas de comportamento têm métodos totalmente racionais, se isso é um problema.

      Ou então veja os horários do plantão de uma clínica-escola e simplesmente vá lá. O papel desse serviço é o acolhimento, eles vão lidar diretamente com a sua ansiedade, e podem te encaminhar depois.

      Boa sorte.

    25. Posso fazer terapia com apenas uma ou duas sessões por mês?

      Fazer terapia apenas uma ou duas vezes por mês pode ser igualmente útil ou só funciona se o paciente for no mínimo uma vez por semana?

      A regra é uma sessão por semana, ou em casos de crise, algum período muito difícil para o paciente, até mais.

      Isso porque o processo precisa ganhar um ritmo, uma intensidade, pra fluir. Paciente e terapeuta precisam de um certo nível de feedback. Um tempo muito grande entre as sessões pode inviabilizar o progresso, principalmente se tem problemas sérios envolvidos.

      Frequências menores, tipo uma vez por mês, são mais um acompanhamento, como por exemplo para ir encerrando aos poucos a terapia, verificar se os ganhos que o paciente teve estão se mantendo.

    26. Em quais casos a terapia em grupo é recomendada?

      Em quais casos a terapia em grupo é melhor que a consulta individual? E em cidades pequenas elas realmente têm efeito positivo, por conta de todos provavelmente já se conhecerem?

      Não tenho muita experiência com terapia de grupo. Mas ela claramente tem uma vantagem nesses contextos em que é mais usada, grupos de vítimas de violência, ou mesmo grupos de perpetradores de violência, tratamento pra vício, porque são casos em que a pessoa se sente muito isolada, inferiorizada, sente que aquilo só aconteceu com ela, e compartilhar a sua experiência com outros, ouvir o que eles têm a dizer, ver que é normal pessoas passam pelo mesmo problema, tem um grande valor terapêutico.

      Isso da cidade pequena é uma questão interessante, e sobre a qual eu sei menos ainda. Eu vejo dois pontos negativos: o risco do que for dito em sessão deixar de ser sigiloso, já que "todo mundo se conhece" na cidade, e a própria impossibilidade do sigilo, se for impossível evitar que tenha pessoas conhecidas no grupo. Às vezes é mais fácil se abrir em situações de crise pra estranhos do que pra pessoas próximas.

    27. Fui a uma psicóloga que me questionou e me ironizou por ser agnóstica, como posso reagir a isso?

      Fui a uma psicóloga que me questionou e me ironizou por ser agnóstica, como posso reagir a isso?

      Pode, e deve, fazer uma denúncia ao Conselho Regional de Psicologia:

      http://www.crpsp.org.br/portal/orientacao/representacao.aspx



PSICOLOGIA
    1. Existe predisposição para se ter depressão?

      Existe predisposição para se ter depressão?

      Existe. O consenso atual é que a depressão maior tem até 50% de determinação genética. Casos na família são fator de risco.

      Em alguns casos, a pessoa vai ter a doença sem que se perceba nisso nenhuma influência óbvia do seu ambiente, da sua história de vida.

      http://depressiongenetics.stanford.edu/mddandgenes.html

    2. Por que quando nos sentimos solitários sentimos literalmente um "vazio" no peito?

      Por que quando nos sentimos solitários sentimos literalmente um "vazio" no peito?

      A maioria das emoções tem um correlato físico. O arrepio do susto ou medo, as "borboletas no estômago" da paixão, o frio na barriga da ansiedade. Quando você está bravo, o coração bate mais rápido, os vasos sanguíneos constritam.

      Inclusive, é até razoável dizer que a manifestação física É a emoção. A gente simplesmente associa um significado a ela. A mesma diferença entre sensação (a estimulação de um órgão sensorial, como a luz chegando ao olho) e percepção (o sentido que damos ao estímulo, por exemplo, a luz sendo a imagem de uma pessoa).

      Eu lembro que quando comecei a tomar antidepressivo, pra tratar depressão e fobia social, me marcou muito que o frio na barriga da ansiedade sumiu do dia pra noite. Isso fez uma tremenda diferença.

      Agora, o motivo do remédio não resolver sozinho esse tipo de problema é que a ansiedade é mantida por todo um histórico de aprendizado, que precisa ser desconstruído na terapia. Senão, você tira o remédio e os sintomas simplesmente voltam.

    3. É possivel ter uma mente como a de Sherlock Holmes?

      É possivel ter uma mente como a de Sherlock Holmes?

      Acho que a "mente" de Sherlock Holmes é definida por quatro dimensões: observação, memória, associação e "dedução".

      Ele é capaz de extrair todas as informações visuais disponíveis numa cena, num objeto ou pessoa, através da observação. Com essas informações, que ele associa a conhecimentos adquiridos anteriormente (em qual parte da cidade existe lama de tal cor, qual o formato da folha de tal planta) que estão sempre imediatamente disponíveis em sua memória, ele faz "deduções" e resolve os casos, ou tira conclusões sobre algo.

      O poder de observação de detalhes tem alta correlação com QI, mas pode ser treinado. No entanto, porque nosso cérebro usa muitos atalhos cognitivos, inclusive filtrando estímulos sensoriais, não é possível estar atento a tudo o tempo todo. Muitas coisas escapam à nossa atenção. Mas a meditação, por exemplo na forma de respiração profunda pra acalmar e se concentrar e se fazer mais ciente do que está ao seu redor, ajuda.

      Memória... acho que o uso normal é a melhor coisa que se pode fazer com ela. Ler muito, aprender muito, trabalhar muito com o que foi aprendido. É como um músculo, quanto mais se usa, mais forte fica. Mas ter as informações necessárias sempre na ponta da língua é coisa de especialistas, e se tornar especialista em várias áreas é coisa pra poucos.

      Poder de associação também tem alta correlação com QI, e na verdade é uma das definições de inteligência. Nós temos uma infinidade de informações no cérebro, o sabor do chocolate, quantos lados tem um quadrado, qual o caminho de casa até o supermercado, o nome do presidente atual, o nome do presidente anterior, as equações trigonométricas, a tabela periódica, a ordem dos faraós do império médio no Egito... mas qual dessas informações é útil para resolver um problema que sequer foi formulado? Qual é a informação que surge imediatamente na sua cabeça quando você vê um risco na parede, ou uma vítima de assassinato caída de tal jeito no chão?

      Fazer associações entre coisas que pessoas comuns nunca imaginaram juntas, aliás, é ser criativo, é o que fazem muitos gênios nas artes, nas ciências. Curiosamente, Sherlock Holmes não é mostrado como sendo uma pessoa exatamente criativa.

      Finalmente, "dedução". Apesar de falar tanto nisso, Sherlock Holmes nunca usa dedução, que é partir do geral para o particular (ex: Todos os números pares são divisíveis por 2, 146 é um número par, portanto é divisível por 2). Ele usa abdução, que estabelece causalidade em termos de maior probabilidade, do particular ao particular (ex: A força caiu, e está chovendo. É mais provável que um transformador tenha queimado do que estarem soando As Trombetas do Apocalipse). Diferente do que acontece nas histórias, a abdução não oferece conclusões necessárias, inequívocas. Esse é o aspecto mais fantasioso das histórias de detetive, a certeza que eles têm sobre suas soluções.

      Então, alguns aspectos dessa mente são possíveis. Outros, não

      De novo, indico o "Sherlock Holmes e o Caso do Dr. Freud".

    4. É possível aumentar o QI?

      É possível aumentar o QI?

      Certamente, mas se você tem idade pra se preocupar com isso e formular a pergunta, temo que já seja tarde demais. :P

      É difícil superar os hábitos cognitivos e intelectuais da nossa formação, ou superar as condições desfavoráveis da infância precoce (nutrição, saúde, socialização) que determinam muito da nossa capacidade de atingir ou não nosso potencial.

      Aprenda, e use o que aprendeu. E depois, aprenda mais. Não se preocupe com QI, ele é só um número, e as pessoas com QI extremamente alto não são necessariamente (ou mesmo particularmente) bem-sucedidas.

      O que importa é o que você faz com os recursos que tem.

    5. O que é desamparo aprendido?

      Você já comentou sobre desamparo aprendido aqui algumas vezes. Poderia elucidar melhor o que é isso?

      Imagine um rato numa gaiola. Ele demonstra uma curiosidade natural, explora o lugar andando pra lá e pra cá, cheirando.

      Agora imagine que metade do piso da gaiola foi eletrificado. O rato descobre isso pisando nessa metade e levando um choque. O choque é um estímulo desagradável, então assim que o rato percebe qual área foi eletrificada, ele vai passar a evitar pisar ali. Se a metade eletrificada mudar, o rato sabe que existe um comportamento, uma iniciativa que evita o choque e portanto o sofrimento: pular para o outro canto da gaiola.

      Ou seja: o rato, assim como todos os outros animais, incluindo obviamente o ser humano, se adapta continuamente ao seu ambiente. Neste caso, nos interessa que ele se adapta evitando estímulos aversivos.

      Mas o que acontece se o rato não tiver como evitar o choque? Se todo o piso for eletrificado?

      Ele vai correr e pular, e ficar extremamente agitado... e eventualmente vai desistir. Vendo que suas iniciativas para controlar sua situação e evitar o estímulo aversivo não têm resultado, vai exibir sintomas de depressão: ficar encolhido num canto, deixar de alimentar e de demonstrar curiosidade. Ele vai deixar de reagir ao choque, e vai continuar assim mesmo quando os experimentadores desligarem a energia e a gaiola voltar ao normal.

      O rato desenvolveu desamparo aprendido: ele "concluiu" que o sofrimento é inevitável, não importa o que ele faça. Isso vai se refletir em todos os aspectos do seu comportamento dali em diante, ele não vai agir para evitar o sofrimento mesmo quando isso for possível.

      Vamos aplicar isso ao ser humano. Imagine uma criança vivendo numa família disfuncional, com pais abusivos. Se os pais bebem ou têm um dia ruim no trabalho e descontam na criança, não há muito que ela possa fazer para prever isso nem evitar essa experiência ruim. E é comum que abusos assim sejam recorrentes. A criança pode tentar se adaptar, obter algum controle sobre sua situação: passar o máximo de tempo possível na rua, por exemplo. Mas vivendo na mesma casa, as possibilidades são limitadas.

      E aí entram detalhes importantes que vão definir as consequências desse ambiente familiar ruim: a resiliência inata da pessoa, seu estilo de atribuição, o quanto ela resiste antes de desenvolver desamparo aprendido, depressão, ou outros comportamentos inadequados, como reproduzir na escola a violência que ela sofre em casa. O bullying tem muito a ver com isso. E certamente isso afeta as notas, a capacidade de aprendizado, a capacidade dela de planejar o futuro. Se ela não consegue nem evitar sofrer abuso físico ou emocional em casa, como vai achar que é capaz de construir uma carreira?

    6. O que leva ao racismo nos tempos de hoje?

      O que leva ao racismo nos tempos de hoje? Por que as pessoas ainda pensam de tal maneira? Baixa escolarização ou fatores culturais?

      O racismo existe hoje pelo mesmo motivo que existia 100, 1.000 e 10.000 anos atrás. Porque a desconfiança do diferente é constitutiva do ser humano. Nossa civilização evoluiu prodigiosamente em poucos séculos, mas o nosso cérebro é a mesma colcha de retalhos cheia de gambiarras da época em que o fogo ainda era novidade.

      Entre os animais, a desconfiança do diferente foi selecionada e preservada pela evolução por vários motivos.

      - Seleção de parentesco. No interesse de passar seus genes adiante, é melhor para você ser solidário a um parente (que tem pelo menos uma fração do seu perfil genético) do que a um indivíduo sem relação de sangue.
      - Administração de recursos limitados. A melhor maneira de lidar com a escassez é através da cooperação, como um grupo. E essa cooperação envolve defender seus recursos de invasores, principalmente se eles também vierem organizados.
      - Um animal encontra outro que nunca viu antes. Ele pode ser inofensivo, mas pode ser também um predador. A desconfiança é a melhor estratégia de sobrevivência.
      - Um animal da sua espécie com aparência ou comportamento diferente pode estar doente, e a doença pode ser contagiosa.

      Nós somos animais sociais, mas também somos naturalmente sectaristas: sempre existe o nosso grupo, "nós", e os outros, "eles". Por causa da nossa flexibilidade intelectual, "nós" e "eles" muda de lugar o tempo todo.

      Dando um exemplo onde essa característica é inofensiva: Uma pessoa que trabalha na mesma empresa que você é "nós" em relação a uma empresa concorrente, mas é "eles" se vocês estão jogando futebol em times diferentes.

      Mas esse é o mesmo processo psicológico que está por trás de todo tipo de preconceito contra um grupo inteiro de pessoas. Enxergamos o grupo "nós" de maneira positiva, exagerando suas qualidades e minimizando seus defeitos. Com "eles", é o contrário: lhes atribuímos mais defeitos do que têm de verdade, inclusive defeitos intrínsecos, de caráter, e nos recusamos a reconhecer suas qualidades. Veja a perseguição aos judeus ao longo dos séculos, sempre acompanhada de calúnias sobre eles. Como foi com os japoneses durante a Segunda Guerra. A ideia de que os negros seriam indolentes e desonestos, que acompanhava sua escravidão. A caricatura do comunista comedor de criancinhas. Preconceito contra nordestinos, no Brasil, contra eslavos, em partes da Europa. Entre católicos e protestantes, e destes dois juntos, formando o grupo maior de "cristãos", mais os judeus, contra os muçulmanos. Contra ateístas.

      Ou seja: o fator cultural, histórico, oferece racionalizações, mas a origem do sectarismo é a nossa própria natureza. A civilização avançou, mas o cérebro não recebeu um upgrade.

      A solução é educação, claro. Mas educação também pra conhecer a origem do problema. Algo totalmente diferente da doutrinação ideológica do povo que acha que "construção social" é o conceito mágico que explica tudo.

      Parte da educação contra o racismo e qualquer outro tipo de preconceito é chamar atenção pro hábito de rotular as pessoas em categorias (de raça, gênero, por exemplo), que nos afasta emocionalmente uns dos outros, e facilita o sectarismo, o preconceito, a crueldade.

      E, paralelamente, lembrar que mesmo que pessoas compartilhem características, são todos indivíduos únicos, com histórias de vida, personalidades, particularidades únicas, pra nos aproximar e promover empatia.

      É fácil alimentar ódio contra um "petralha" ou "reaça" genérico, uma "feminazi" ou um "mascú" abstrato. É bem mais difícil fazer isso pensando numa pessoa específica, conhecendo ela de perto, sabendo que é tão humana e falível e influenciável e irrelevante na grande história das coisas quanto você mesmo.

    7. Os testes de viés implícito mostram que eu sou racista?

      Fiz dois testes do Project Implicit. 'Skin-tone' e 'Race', resultados: "Your data suggest a strong automatic preference for Light Skin Tone compared to Dark Skin Tone" e "Your data suggest a strong automatic preference for European American compared to African American". Eu sou racista, Marcel? :-(

      Esse teste mede uma coisa chamada viés implícito.

      Todos nós temos viéses implícitos. Uma grande hipocrisia dos movimentos sociais é achar que seja possível se livrar disso, é mais um ponto mostrando que eles não entendem nada sobre a natureza humana.

      O teste não te pergunta diretamente se você prefere uma coisa ou outra, ele mede seu tempo de reação entre duas opções e analisa as associações que você faz entre medo ou confiança e uma opção ou outra.

      Isso significa que você, inconscientemente, instintivamente, tem uma preferência. Isso pode ou não afetar as suas ações, mas não significa que seja voluntário ou que esteja de acordo com as suas crenças.

      E, bom, todos sabemos que temos viéses não-analisados sobre várias coisas, não é nenhum segredo.

      Agora, isso é totalmente diferente do viés explícito, que é algo de que você está consciente, que você faz voluntariamente.

      Viés explícito é dizer que mulheres são inferiores a homens. É dizer que esta ou aquela categoria de pessoa não merece os mesmos direitos das outras. É não se sentar do lado desta ou daquela pessoa no ônibus.

      O viés explícito, sim, te define como racista.

      Viés implícito é tender a achar que se um negro foi acusado de um crime, ele é provavelmente culpado. Mas se um branco é acusado da mesma coisa, ele é provavelmente inocente.
      Um negro com uma arma é perigoso, mas um branco com uma arma, não.

      Estes são uma zona cinzenta. Se os viéses implícitos de uma pessoa forem muito fortes, e todos ao seu redor perceberem isso, menos ela, trata-se de alguém que não tem uma percepção muito boa de si próprio, alguém sem capacidade de introspecção e autocrítica.

      O que nós precisamos fazer é, primeiro, aceitar que temos viéses implícitos. Temos automatismos. É inevitável.

      Segundo, nos dispormos a sempre analisar nossas ações e nossas posturas. Não somos perfeitos, corretos o tempo todo, mas precisamos ter autocrítica e podemos tentar sempre fazer o melhor que está ao nosso alcance.

      Terceiro, não ficar patrulhando os outros, atirando a primeira pedra com muito gosto, porque isso também é sinal problemas emocionais seus. Dar um toque, até vá lá, se você tiver a sensibilidade pra fazer direito. Mas cada um precisa percorrer seu próprio caminho, e às vezes cutucar demais só atrapalha e atrasa a pessoa, inserindo na situação um jogo de poder que não deveria estar lá.

    8. Existem testes para medir o grau de empatia? Como fazer para ser uma pessoa mais empática?

      O grau de empatia de alguém pode ser objetivamente verificado com algum teste psicológico? Se se deseja ter mais empatia, o que se deve fazer? ¡Gracias!

      Sim, mas por "objetivamente" entenda algo cuja avaliação segue regras independentes da opinião subjetiva de alguém. Não é uma medida com o mesmo grau de exatidão de uma dimensão física, por causa da própria natureza dos testes psicológicos.

      Um teste de que eu lembro agora é o de "Quociente de Empatia", usado pra dianóstico de autismo e síndrome de Asperger.

      Quanto a ter mais empatia, basicamente faça o contrário de tudo que as pessoas fazem nas discussões em redes sociais.

      - Primeiro, é necessário conhecer, entender a você mesmo. Sem a consciência da sua própria humanidade, das suas próprias forças e fraquezas, não dá pra entrar em contato com a humanidade dos outros. Você sabe falar sobre o que sente? Dar nome pro que sente? Sabe o que mexe com você? Sabe quando perde o controle? Quando perde a objetividade? Perde a razão?

      - Baixe a guarda. Sem espontaneidade, não há empatia.

      - Observe e ouça os outros sem julgar, sem aplicar os seus valores, sem aplicar as suas opiniões sobre o que eles estão fazendo ou sentindo. Sem preparar mentalmente uma resposta. Tente entender o fluxo dos sentimentos, colocar-se no lugar dos outros. A empatia é um instinto, não uma lógica. Ou seja: cale a mente e cale a boca.

      - Tenha um interesse genuíno pelas pessoas. Não pelo que elas fazem, ou pelo papel delas na sua vida, ou pela posição delas numa conversa ou debate, mas por quem elas são.

      - Ignore as diferenças entre você e outras pessoas, e concentre-se no que vocês têm em comum.

      - Rotular é simplificar, reduzir, separar o indivíduo da sua humanidade, eliminar a possibilidade de empatia. Repare como cada vez mais se cria e se usa rótulos, à medida que cada vez mais cai o nível do debate público. Ninguém mais é um ser humano, complexo demais pra caber num único rótulo. Ao invés disso, a pessoa é petralha, lulopetista, reaça, direitista, esquerdista, machista, misógino, opressor, homofóbico, transfóbico, heternormativo, feminazi, gayzista, abortista, coletivista. Curiosamente, paradoxalmente, onde eu observo a falta mais intensa de empatia é em alguns movimentos sociais, usando esse critério de criação e uso de rótulos.

      Quebrar a pessoa em pedaços conceituais ao invés de encará-la por inteiro, em toda a sua humanidade, é uma estratégia para afastar o outro, reduzir e empatia e facilitar a agressão.

    9. Por que às vezes associamos sensibilidade e empatia com fraqueza?

      Por que às vezes associamos sensibilidade e empatia - o simples "ser legal com os outros" - com fraqueza?

      Depende do contexto. A caridade, a generosidade, são muitíssimo bem vistas, socialmente.

      E "ser legal com os outros", no nível pessoal, também é... exceto quando a pessoa faz isso esperando algo em troca. Reconhecimento ou status, ou aquelas pessoas que reclamam de serem colocadas na "friend zone", porque foram tão legais, mas não tiveram nenhuma chance.

      A subserviência também é mal-vista, você se colocar demais a serviço dos outros, sem dar valor pra si mesmo.

      Acho que a diferença é essa: quando você é generoso e caridoso, é uma pessoa inteira, completa, que sabe seu próprio valor, e que se doa aos outros. Quando é subserviente, quando tenta agradar demais, pelo contrário, está fazendo isso como uma maneira de se afirmar, está mostrando insegurança.

      E aí, não são a sensibilidade e empatia que são mal-vistas, inclusive porque a pessoa não está sendo realmente empática ou sensível, pelo contrário: as ações dela são um meio para um fim, não um fim em si mesmo, como no caso da caridade.

      É a insegurança dela, a necessidade de se afirmar por esses meios, que nos deixa desconfortáveis e geram antipatia.

    10. O ser humano já nasce com um lado bom e um lado mau?

      Marcel, você concorda que o ser humano já nasce com o lado bom e lado mau? Ou pensa que é através das situações, histórico de vida, convivências e de outros estímulos, que esses lados citados podem se sobressair?

      O ser humano nasce.

      Indivíduos têm características inatas diferentes. Entre centenas de bebês recém-nascidos num berçário, alguns vão ter "alelos de alto risco para agressão, violência e baixa empatia", assim como alguns têm naturalmente um talento musical, e outros, talento esportivo.

      Mas, sim, é a vida que vai moldar a pessoa no que ela acaba se tornando. Nem toda pessoa com talento esportivo se torna um esportista profissional. Alguns músicos desenvolvem suas habilidades pelo esforço, já que são capazes, mas não dotados de nascença.

      As aspas foram tiradas dessa matéria aqui: http://www.smithsonianmag.com/science-nature/the-neuroscientist-who-discovered-he-was-a-psychopath-180947814/?no-ist

      Um neurocientista descobriu que ele tem não só a anatomia cerebral de um psicopata, como também os genes de um. Ele tem sete assassinos na família. E, no entanto, é uma pessoa normal, um pai de família, e um cientista de carreira.

      Mas, se você procurar, vai encontrar indícios de de uma personalidade agressiva. Ele admite ser competitivo, e ter pouca empatia. Mas diz que a sua criação, as suas experiências, o direcionaram para uma vida saudável, para um uso socialmente aceito dessas características.

      Ou seja, ele usa sua competitividade no trabalho. Resolve sua agressividade com argumentos, não com violência física.

      Mas eu acho importante frisar que a maioria de nós é pelo menos capaz, senão propensa, à maioria dos atos mais monstruosos que se pode imaginar. Torço o nariz para documentários sobre serial killers, ou sobre alguém como Hitler, em que a pessoa é tratada como um "monstro", alguém diferente de você ou de mim de uma maneira fundamental, desligado da humanidade. A verdade é que existem milhões de "Hitlers" espalhados pelo mundo, mas vivendo vidas normais porque as circunstâncias não os levaram pelo caminho errado, ou não lhes deram a oportunidade de se tornarem o pior que podem se tornar.

      * * * * * * *

      Só pra terminar, um comentário: "bem" e "mal" como ideias que existem por si mesmas, desligadas do contexto dos nossos atos ou de outros dualismos conceituais como espírito x matéria, é algo típico do pensamento ocidental.

      O símbolo do ying-yang mostra a atitude mais comum na filosofia oriental, os opostos existem juntos, é impossível separá-los. Um é parte do outro.

      E o Bhagavad Gita diz: "Todos os atos são acometidos por imperfeições, assim como o fogo pela fumaça". O fogo é o elemento mais perfeito nessa tradição, mas mesmo ele vem contaminado pela fumaça.

      É bobagem imaginar que as pessoas tenham um lado bom e outro mal. Nós existimos por inteiro.

    11. Existe alguma correlação entre um homem sentir prazer anal e homossexualidade?

      Pode parecer uma pergunta boba e obscena, mas não é, juro. Pra vocês, psicólogos, existe alguma correlação entre um homem sentir prazer anal (o famoso fio-terra) e homossexualidade, afinal?

      A homossexualidade é o direcionamento do desejo. Ao invés de ter atração por mulheres, o homem homossexual tem atração por outros homens.

      Acontece que, diferente do que seguidores de Foucault e Judith Butler gostam de fazer parecer, a natureza existe.

      E nesse caso, isso significa que a obtenção da satisfação sexual precisa se adaptar, e aí a popularidade do sexo anal entre homossexuais.

      Então, a correlação existe principalmente porque as possibilidades são diferentes das de um casal heterossexual, e o fato das possibilidades serem diferentes tem várias implicações, inclusive nas fantasias da pessoa. Mas também tem a ver com questões culturais, tabus, dificuldades práticas.

      Agora, se um paciente me diz que tem prazer anal e isso faz parte das práticas dele, sozinho ou mesmo com namorada, esposa, eu não pensaria, só por causa disso, que ele é homossexual e não saiu do armário.

      Ou seja, apesar da correlação existir, ela não é determinante.

    12. Existe algum indício de que livros de auto-ajuda funcionem?

      Existe algum indício de que livros de auto-ajuda funcionem?

      Difícil dizer, porque existem tantos tipos diferentes de livros de auto-ajuda.

      Se um deles incluir sugestões práticas como "se exercite pelo menos trinta minutos todos os dias", e a pessoa seguir, então vai fazer diferença pra ela, independente do resto do conteúdo, porque para uma pessoa sedentária, qualquer exercício como caminhada ou corrida, ou nadar, jogar tênis tem um efeito positivo indiscutível sobre o seu bem-estar.

      E existem livros de psicólogos em que o conteúdo é baseado em décadas de experiência e comprovação empírica, como os do Albert Ellis, mas também existem livros de pessoas de qualquer outra área que um belo dia resolveram sentar e escrever um livro de auto-ajuda, muitas vezes simplesmente pelo fato de que livros de auto-ajuda dão dinheiro, e elas falam todo tipo de absurdo.

      O Segredo não é um livro de auto-ajuda?

    13. Por que é tão difícil mudar os hábitos mesmo após se conscientizar sobre eles?

      Por que é tão difícil exterminar os hábitos mesmo após corrigir uma ideia intelectualmente?

      Quando uma criança está aprendendo a ler por um método sintético (modelo que desgraçadamente caiu em desuso no Brasil, não há erro que os nossos pedagogos não cometam), ela conscientemente faz um esforço para ler cada parte da palavra, por exemplo: C-A-S-A, e depois conscientemente junta as partes e obtém o resultado: "casa".

      Com o tempo e a prática, esse processo se automatiza e ela bate o olho na forma da palavra e já identifica imediatamente do que se trata: "casa". E passa a ler frases e textos inteiros sem esforço consciente nenhum.

      Para essa criança, a leitura se tornou um hábito.

      Você consegue desconstruir intelectualmente o hábito da leitura? Fazer com que, ao bater o olho na palavra "casa", seu cérebro *não* a reconheça automaticamente, e ao invés disso retornar ao processo anterior, em que você precisa se esforçar para identificar e organizar conscientemente cada letra?

      Não. Porque não é assim que nosso cérebro funciona.

      Assim como aprender a caminhar (um bebê precisa se equilibrar sobre as duas pernas, e mover uma e depois a outra com esforço e concentração, sempre reajustando o equilíbrio, até que o processo todo fica automático e ele caminha e corre sem nem pensar a respeito) e muitos outros comportamentos, tudo tende ao hábito. Inclusive, o hábito é um modo específico de funcionamento do cérebro, cujos detalhes não vou lembrar agora.

      O motivo disso é evolutivo: automatizando os comportamentos, nossa atenção fica livre para obter informações sobre o ambiente. A automatização economiza tempo e energia, e libera recursos para outras tarefas. Quando um motorista experiente dirige, ele não precisa se concentrar na troca de marchas, nos pedais de freio, aceleração e embreagem. Tudo isso se tornou um hábito, a sua atenção está livre para se concentrar na rua, nos outros carros, nas placas, em algum pedestre desavisado de que você precisa desviar pra não atropelar e sujar de sangue o carro que você acabou de encerar.

      Então, em grande medida, o hábito está fora da jurisdição do intelecto.

      O que não significa que não seja possível mudar certos hábitos, como vício em cigarro, bebida, drogas, redes sociais, procrastinação, certas comidas, jogo, como crianças fazerem xixi na cama ou brigarem na escola. Do mesmo modo, é possível criar hábitos desejáveis.

      Só significa que precisamos usar outros meios.

      Os hábitos são formados por rotinas específicas. Um fumante, por exemplo: em casa, primeiro ele pega o cinzeiro, depois vai até a janela, abre a janela, coloca o cinzeiro no parapeito, pega o cigarro e o acende, e fuma olhando a paisagem.

      Um viciado em internet pode acordar e já pegar o celular para olhar as redes sociais, antes mesmo de se levantar, ou chegar em casa e jogar bolsa ou mochila na cama e já ligar o computador.

      A maneira de mudar esses hábitos não é pela "força de vontade", ou pelo "poder do pensamento".

      É interferindo na sequência de comportamentos e estímulos ambientais que constituem o hábito.

    14. O que achou da aprovação da Lei da Palmada?

      O que achou da aprovação da Lei da Palmada?

      Eu sou contra a palmada, ou qualquer forma de agressão física ou psicológica com a desculpa de "educar".

      Mas nem por isso sou necessariamente a favor de uma lei pra regulamentar essas coisas.

      Quanto ao motivo de ser contra a palmada: é, de novo, psicologia comportamental, behaviorismo.

      Os pais favorecem punição corporal como as palmadas porque elas têm um efeito imediato, o de parar o comportamento indesejado, e servem como catarse para a própria irritação. Mas fora esses dois aspectos "positivos", ela só cria problemas.

      Se funcionou uma vez, é mais provável que os pais usem violência de novo quando a criança tiver um comportamento inadequado, ao invés de tentarem algo realmente educativo, mas que dê mais trabalho.

      A palmada não ensina o certo, só pune o errado. Mas nem pra isso funciona direito, porque você não sabe o que a criança vai aprender pela punição (ela pode desenvolver um medo patológico dos pais ou de outras autoridades; pode desenvolver vários comportamentos pra evitar a surra depois de ter feito algo errado, como mentir, fugir, chorar, fazer birra; pode aprender a mentir, fugir, chorar, fazer birra simplesmente por *achar* que vai apanhar, mesmo sem ter feito nada de errado; pode desenvolver desamparo aprendido, que é terrível; etc).

      A criança pode aprender que a violência é uma forma de demonstrar amor, porque os pais dizem que estão batendo "para o próprio bem dela". Essa contradição é a base de muitos problemas emocionais, e a criança leva esse aprendizado para outros relacionamentos na vida adulta.

      Há quem diga que apanhou quando era criança e hoje é um adulto saudável, lindão, produtivo, gente de bem. Talvez. Mas entenda: não foram as palmadas que o deixaram assim. O lance é que as *qualidades* dos seus pais e a sua própria resiliência foram mais fortes do que o erro que eles cometeram o agredindo de vez em quando. Isso se a pessoa estiver certa quanto ao fato de não ter mesmo nenhuma sequela emocional. Só o fato de defender o uso da violência contra crianças, apesar do óbvio de se tratar de um ser humano indefeso e em formação, mais todas as evidências dizendo pra não fazer isso, já me deixa com o pé atrás.

      Quanto à lei em si: ela não estabelece punição, deixa tudo a cargo da... instituição lá que esqueci o nome. Serve pra quê, exatamente?

      Não vou dizer que sou contra. Mas, puxa, como o brasileiro adora o cheirinho de lei nova. Achar que se resolve qualquer problema criando mais uma lei é só outro modo de esperar um salvador da pátria, uma solução mágica que tire de cada um de nós a responsabilidade de nos informar, de nos envolver um pouco, de votar direito, de vigiar as instituições, pra criar uma sociedade melhor.

      Nós pedimos e ganhamos mais leis, só que as pessoas não sabem nada sobre a estrutura institucional que fica responsável pela aplicação delas depois.

      Eu fiz estágio na Delegacia da Mulher, vi essa realidade bem de perto.

    15. Por que o ser humano, que é tão racional, não consegue eliminar o sexo da sua vida?

      Por que o ser humano, que é tão racional, não consegue eliminar o sexo da sua vida?

      Você está baseando a pergunta numa premissa falsa.

      O ser humano é capaz de racionalidade, mas o comportamento dele não é tão racional assim.

      Quando pensamos numa entidade abstrata, o número 2, a cor azul, o triângulo, pensamos em algo que existe independente de contexto, que é eterno e imutável.

      Não podemos pensar o ser humano assim, em abstrato. Ele existe dependente de um contexto, que são as condições naturais da vida no planeta Terra. Ele é definido pela história da evolução da sua espécie.

      O nosso cérebro, as nossas capacidades cognitivas, não existem à toa, eles têm uma função: favorecer a nossa sobrevivência e a nossa reprodução a fim de dar continuidade à espécie.

      Então, nós não decidimos racionalmente se vamos ou não nos alimentar; nós sentimos fome, que é um fenômeno fisiológico que invade os nossos sentidos e a nossa consciência com a necessidade, o desejo por comida. E isso provoca a nossa ação, porque se torna cada vez mais difícil ignorar a fome. A decisão de ir atrás de comida não é imparcial, abstrata, feita por uma mente separada de um corpo. Ela responde a imperativos fisiológicos, já que a mente é o corpo.

      Nós não decidimos racionalmente se gostamos ou não de queimar a mão com fogo. Isso provoca dor, e a consciência é programada pra evitar a dor.

      Nós não decidimos racionalmente que vamos interagir com outros seres humanos. A presença de outras pessoas provoca em nós o desejo de comunicação, de companhia, de reafirmação, de cooperação, de carinho, de camaradagem.

      O homem primitivo não decidiu racionalmente criar instrumentos a partir de paus e pedras para caçar, assim como o homem moderno não decidiu racionalmente construir casas, carros, armas, computadores. O comportamento de criar e utilizar instrumentos cada vez mais sofisticados, começando com um mero graveto encontrado no chão, foi recompensado com maior eficácia na caça, no transporte, na coleta e armazenagem de alimentos, enfim, na sobrevivência e na reprodução. E, portanto, esses comportamentos foram reforçados e selecionados, transmitidos de geração em geração.

      Do mesmo modo, o ser humano não decide fazer sexo por um processo abstrato, lógico, racional. Ele tem o instinto para isso, o impulso fisiológico simplesmente existe. Obviamente, assim como no caso da comida, os comportamentos que vão satisfazer esse impulso são modulados pelo convívio social. Você não arranca o hamburger da primeira pessoa que vê quando entra numa lanchonete, você vai até a fila, espera chegar a sua vez, faz a compra, espera o seu lanche ficar pronto.

      Ou seja: a nossa racionalidade não é tão racional assim. Ela é influenciada pelos imperativos da nossa existência biológica.

      Mas, diferente da comida, é possível e até comum viver sem sexo. Mas quando é algo forçado, como no caso de religiosos, muitos são perturbados pelo desejo, e executam até rituais de mortificação pra se livrarem dele (ou pra obterem prazer no sofrimento, embora não admitam). É um assunto interessante.

    16. As crianças superprotegidas pelos pais tendem a ter menos auto-confiança?

      As crianças que crescem mantidas em um regime de superproteção por parte dos pais são mais propensas a terem dificuldades de desenvolver auto-confiança?

      Depende, alguns pais são superprotetores controlando a agenda da criança, enfiando ela em mil cursos e não deixando tempo livre, outros são por terem um medo paranoico do mundo lá fora, e outros ainda por terem criado um ambiente familiar disfuncional e se sentirem compelidos a exercer controle minucioso sobre todos os aspectos da vida dos seus filhos...

      Falta de auto-confiança mais tarde é comum, mas a pessoa também pode desenvolver excesso de confiança apesar (ou, via efeito Dunning-Kruger, por causa) da sua incompetência e falta de flexibilidade.

      Muitas críticas à "Geração Y" são feitas nesse tom, seriam jovens superprotegidos que se acham importantes demais pra se dedicarem diligentemente a uma carreira, acham que o mundo lhes deve reconhecimento, prosperidade e felicidade.

    17. O hype em torno da meditação é justificado?

      Existe um "hype", uma extrapolação, em relação aos benefícios ou até mesmo ao exercício de meditação? Você mencionou ter procurado o budismo. Acabou por meditar também? O que achou?

      A meditação tem benefícios amplamente comprovados em pesquisas: http://www.mayoclinic.org/tests-procedures/meditation/in-depth/meditation/art-20045858

      Ela só não é uma panacéia, e aí entra o hype, que é pessoas ou instituições prometerem resultados simplesmente irreais. Então, você tem que saber separar fato de ficção.

      O budismo, especificamente o zen, me interessa como filosofia, e como metáfora, ou talvez aproximação, pra muitas coisas em psicologia.

      Experimentei meditar, fui algumas vezes a um zendô, mas nunca criei o hábito. É interessante, acho que vale a pena conhecer. Mas tem uma coisa contra qual se alerta, pelo menos no zen, que é você praticar esperando algum tipo de resultado. Você tem que ter a mentalidade, a postura certa, que é "meditar com o objetivo de meditar", e não com o objetivo de diminuir o stress, por exemplo.

      Isso pode ser decepcionante pra pessoa que não chega preparada.

      Mas, bom, não sei como é em outras abordagens de meditação.

    18. O que é a vaidade?

      Me questiono frequentemente sobre o que seria a "vaidade" dentro da perspectiva da psicologia. Qual a explicação mais embasada para essa necessidade humana de demonstrar que se é alguém relevante, que se tem coisas de valor?

      O ser humano é um animal social, portanto nós somos "programados" pra levar em conta a existência de outras pessoas ao nosso redor em tudo o que fazemos.

      Além disso, talvez soe estranho falar nessas coisas nessa era de iPhone e Buzzfeed e Grumpy Cat e Starbucks, mas a sobrevivência e a reprodução foram os imperativos mais importantes, e praticamente os únicos, durante 99,9% da nossa história evolutiva. Por causa do imperativo da reprodução, que envolve atrair um parceiro, e portanto disputar parceiros num, ahem, mercado competitivo, temos o desejo de status, que nos faz nos destacarmos na multidão, que nos torna mais desejáveis, e exercemos isso cuidando da aparência (que serve para indicar saúde, juventude, fertilidade), e buscando poder (financeiro, acadêmico, social), e exibindo essas características por aí.

      E isso está em tudo. O tipo de roupa, o corte de cabelo, os acessórios, as marcas, o carro, o endereço e a decoração da casa, o jeito como você anda e gesticula, a postura do seu corpo, o seu tom de voz ao falar, o quanto você fala numa conversa, a direção pra onde olha em presença de outras pessoas.

      Então, podemos até achar e dizer que o exercício da vaidade seja para nós mesmos. Mas a *existência* da vaidade, a nossa *capacidade* de termos vaidade, tem a ver com a nossa história evolutiva, e nesse sentido, ela existe para os outros.

    19. O que você acha do padrão de beleza atual em que as mulheres devem ser totalmente depiladas?

      O que você acha do padrão de beleza atual em que as mulheres devem ser totalmente depiladas?

      Em que sentido?

      Em termos de psicologia evolutiva, o ser humano valoriza caracteres neotênicos, que denotam juventude, que tem correlação com saúde e potencial reprodutivo. Tanto no homem quanto na mulher, pele lisa e limpa é considerado mais atraente do que com rugas e manchas, por exemplo. Mas a associação de neotenia com beleza é mais forte para a mulher do que para o homem: mulheres mais baixas, de cabelos vistosos, seios firmes, etc, costumam ser consideradas mais atraentes, ao passo que cabelos grisalhos, barba, e até algumas rugas podem ser considerados atraentes em homens.
      Uma hipótese da atração de tantos homens por mulheres asiáticas está justamente aí, elas tendem a parecer mais jovens (o inverso não é verdade, a julgar pelos dados do OkCupid, os homens asiáticos são considerados os menos atraentes de todas as etnias).
      E a depilação de cada vez mais partes do corpo se encaixa nesse padrão de valorizar a estética da juventude. Não só nas mulheres, mas principalmente nelas.

      Uma abordagem um pouco diferente é que quanto mais rica uma sociedade, e o mundo nos últimos cem anos é imensuravelmente rico comparado com todos os cinco mil anos anteriores de história humana, mais as pessoas se dão ao luxo de se expressar por meio de comportamentos e aquisições supérfluos. Em outras palavras um estado de constante fome, peste e guerra tem a curiosa tendência de fazer a prioridade de algo como depilação, principalmente das, ahem, partes pudendas, cair drasticamente, ou mesmo nem surgir em primeiro lugar.

      Do mesmo modo, algumas pesquisas indicam que quanto mais desenvolvida é uma sociedade, mais homens e mulheres tendem a se diferenciar, o que faz sentido pelo mesmo raciocínio: pequenas diferenças inatas permanecem ocultas numa vida de subsistência, mas ganham espaço para se manifestarem na vida de luxo comparativo que até pessoas de classe baixa têm em países ricos. Assim, mulheres se depilariam para se diferenciar dos homens.

      Agora, a nível individual... vai de cada uma. É meio tosco esse discurso "contra" padrões de beleza e de outros tipos, porque eles sempre existiram, e talvez sempre existam, porque modas e convenções são da natureza do ser humano enquanto animal social.
      Pode soar paradoxal, mas se um padrão te prende ou te liberta, depende unicamente de você. Existe liberdade em não gastar seu tempo se preocupando com cada detalhe da sua existência, e se dedicar só ao que você, pessoalmente, considera importante, porque desviar de um padrão social facilmente se transforma num ato político pelo mero atrito com as convenções, e rende consequências inesperadas ou indesejadas. A fronteira entre escolha pessoal e hábito ou influência social é extremamente difusa. E isso vale pra tudo, até pras mulheres muçulmanas se cobrindo inteiras, ou pra mulher ocidental depilando as, ahem, partes pudendas.



COMPORTAMENTO, RELACIONAMENTOS
    1. Cheguei aos 30 anos sem namorada, nas vezes que tentei fui rejeitado. Meu psicólogo diz que estou defasado por não ter experiência de relacionamentos, parei no tempo como um adolescente.

      Cheguei aos 30 anos sem namorada, nas vezes que tentei fui rejeitado. Meu psicólogo diz que estou defasado por não ter experiência de relacionamentos, parei no tempo como um adolescente. Me dá um misto de tristeza/inveja ver jovens casais felizes, além de ter mais atração por garotas mais novas.

      Existem muitas coisas que nos afastam daquilo que costumamos imaginar como sendo uma "vida normal".

      Um divórcio complicado dos pais quando somos bem novos. Doença crônica, doença mental, acidente grave. Abuso emocional ou físico. Deficiência física. Preconceito.

      Qualquer uma dessas experiências, e muitas outras ainda, já que tudo depende do contexto, pode nos dar uma sensação de alienação das outras pessoas, uma sensação de que somos diferentes delas e que existe um abismo entre nós.

      O fato de você não ter tido ainda um namoro, um relacionamento, pode ser uma dessas experiências alienantes.

      Mas entenda que não existe uma "vida normal", ideal. Só existem vidas individuais, a sua, a minha, cada uma única e com a sua própria trajetória, e todas com seu próprio valor.

      Eu não conheço a sua história, então tudo que posso dizer é que você precisa aceitar as suas circunstâncias, fazer as pazes com a sua história até aqui, e construir a sua vida deste momento em diante.

      Sim, provavelmente existe uma defasagem. Mas você não pode parar a sua vida nessa constatação. Precisa aceitar essa constatação, e se perguntar: como seguir a partir daqui?

      Você não pode limitar a sua identidade, o seu valor enquanto indivíduo, ao fato de não ter namorado. É apenas um detalhe, entende? Ainda que, socialmente, seja algo a que as pessoas deem muito significado.

      Mas, segundo uma entrevista que li outro dia, Luís Carlos Prestes foi virgem até os 37 anos. Não o impediu de ser um dos 100 maiores brasileiros de todos os tempos, segundo a BBC.

    2. Gosto de um rapaz que tem Asperger e é altamente funcional. Mas não tenho coragem de correr o risco de me declarar.

      Gosto de um rapaz que tem Asperger e é altamente funcional. Mas não tenho coragem de correr o risco de me declarar, ele não ser afim e se afastar (sem contar que acho estranho chegar e falar assim na lata), mas também acho que ele não vai entender se eu só "mandar sinais". Você teria um conselho?

      Se você for mulher, seja bem-vinda nessa visita ao mundo dos homens. Aqui, sem iniciativa, sem correr riscos, não há vida amorosa.

      Assumindo que vocês já sejam próximos, e tenham alguma química juntos, eu acho que... você vai ter que correr o risco de se declarar. Na lata. E ver se ele gosta da ideia, e navegar as coisas a partir desse ponto. Dependendo do quanto ele tiver de experiência, você vai ter até que literalmente conversar sobre o assunto de gostar dele e tal e querer ter alguma relação.

      Mas, sim, do mesmo jeito, se prepare para ser rejeitada. Faz parte.

      Eu tenho um certo interesse pelo assunto do autismo e asperger, e li uma coisa curiosa, uma vez: uma garota aspie dizendo que, apesar de tudo, descontando a desumanização do outro, o lance dos pick-up artists, aquele livro "The Game", Julien Blanc e tal, era útil pra pessoas como ela aprenderem a ler os sinais nos outros e aprenderem um mínimo de técnica pra se aproximarem de alguém e demonstrarem interesse.

      Pra você ver como as coisas raramente são tão preto e branco quanto se faz parecer.

    3. Estou tomando um remédio para depressão que me ajuda bastante, mas meu namorado não aceita isso.

      Eu estou tomando um remédio para depressão que me ajuda bastante, mas meu namorado não aceita isso direito e pergunta quando eu vou parar com a medicação. Parece que ele não entende o meu problema, e eu também não sei como explicar. Tem alguma dica para me dar?

      Depressão é uma doença difícil de entender quando se está olhando do lado de fora. Muita gente ainda acha que é um problema de atitude, de força de vontade, já que os sintomas dela raramente são marcantes como os da esquizofrenia ou a fase de mania do transtorno bipolar. Mas se você procurou tratamento e viu a diferença que ele faz, entende claramente o que tem de errado com você.

      Então, esse é um ponto. Ele nunca vai entender a sua depressão com a clareza que você mesma entende.

      O outro ponto é que... o diagnóstico de depressão, e a necessidade do tratamento, especificamente do remédio psiquiátrico, que tem um estigma social forte, quebram, pelo menos temporariamente, uma ilusão subliminar de normalidade e de invencibilidade que nutrimos sobre nós mesmos e compartilhamos com as outras pessoas. Algumas pessoas têm tanta necessidade de manter intacta essa ilusão de normalidade que nunca encaram a doença de frente, apesar de saberem dela e sofrerem com ela, ou nunca procuram tratamento, ou se procuram, desistem facilmente.

      Você superou essa barreira. Mas o seu namorado, provavelmente, não. Então, cada vez que ele vê sua cartela de comprimidos, ou lembra deles, ele é confrontado com esse abismo simbólico que se abriu entre vocês (você não é mais "normal" como era antes do diagnóstico e do tratamento, mesmo que o sofrimento estivesse lá, apenas sem um nome), e vicariamente ele experimenta a fragilidade dessa ilusão de normalidade a respeito dele mesmo.

      Assim, sumindo os remédios, é como se tudo voltasse a ser como era antes. Claro que isso é uma ingenuidade e meio insensível da parte dele.

      (A outra possibilidade é que algum efeito colateral da medicação, como a baixa da libido nos primeiros meses, esteja envolvido, mas como você não mencionou nada, vou deixar de lado.)

      A minha dica é a seguinte: primeiro, tenha bastante claro na sua cabeça que você está se tratando de uma doença psicológica, cuidando da sua qualidade de vida. Está fazendo a coisa certa. Segundo, diga pra ele ser mais compreensivo, afinal quem sofre com essa doença é você, e não ele, e é mesquinho ele se incomodar com a medicação que você toma.

      Terceiro, mande ele parar de encher o saco.

    4. Trabalho com o que gosto e recebo bem, estou em um relacionado bacana há vários anos. Mas sempre me vem à mente a ideia de que vou colocar tudo a perder.

      Tenho uma vida boa. Trabalho com o que gosto e recebo bem, estou em um relacionado bacana há vários anos, estável e tudo. Enfim, não tenho do que reclamar. Mas sempre em algum momento aleatório do dia me vêm à mente a ideia de que eventualmente eu vou colocar tudo a perder, desapontar todas as pes

      A pergunta ficou truncada no final.

      Até aqui, o que eu posso dizer é: é absolutamente normal termos pensamentos intrusivos negativos com alguma frequência.

      Por exemplo, não são só pessoas perturbadas que pensam em pular da janela quando se aproximam dela, a diferença é a intensidade com que essas pessoas sentem que podem mesmo acabar fazendo isso.

      E a "síndrome do impostor" é bastante comum.

      Se isso merece mais atenção ou não, depende do quanto interfere com o seu humor, seu desempenho nas tarefas do dia-a-dia, na sua qualidade de vida.

    5. Como lidar com o fracasso, com decepção nos estudos, trabalho, família?

      Marcel, como lidar com o fracasso completo? como conseguir seguir vivendo alguém que falhou em tudo, estudos, trabalho, família, e agora tem que ver amigos e ex-namoradas seguindo em frente, felizes, prósperos? o problema nem é de inveja, mas sentir-se um incapaz na comparação. Como faz? :((((

      Aceite o passado, faça uso do presente, e tenha planos para o futuro.

      Você despertou da Matrix. A vida que achava que deveria ter era só uma ilusão, porque a pessoa que você achava que era, e que os outros, pais, parentes, professores, amigos, diziam que você era, nunca existiu.

      Onde será que vocês erraram? Escolheu a profissão errada, por pressão familiar? Ignorou ou fingiu que não existia algum problema psicológico, como depressão?

      Este é o momento de descobrir.

      Você precisa aprender algumas coisas sobre si próprio. Que vozes são essas na sua cabeça, te acusando de fracasso? De onde saíram aqueles planos de vida que você não conseguiu ou não quis cumprir, e que portanto não eram certos pra você? Eu recomendo um terapeuta. É pra isso que eles servem.

      Não vai ser fácil. Mas não porque você seja pior do que outras pessoas, um "fracassado", e sim porque você precisa aprender a olhar pra si próprio e pro mundo de um jeito diferente do que estava acostumado, diferente do que te levou pra um caminho errado.

      Einstein disse numa carta para o filho, "Viver é como andar de bicicleta. Para manter o equilíbrio, você precisa estar sempre em movimento". Isso se aplica em dobro pra você neste momento.

      O lado bom é que todo mundo adora uma história de superação. As pessoas mais interessantes são aquelas que em algum momento perderam a si próprias e tiveram que se reconstruir. Quando você sair na outra ponta do túnel, vai entender isso.

      Mantenha-se em movimento.

    6. Fico bastante envergonhado quando não faço algum exercício passado por professores. Falto à aula ou faço de tudo para não vê-los nem no restaurante. Isso é normal?

      Marcel, fico bastante envergonhado quando não faço algum exercício passado por professores (estou na universidade). Falto a aula ou faço de tudo para não vê-los nem no restaurante, pois estraga meu dia. Pode ser algo sem nota ou obrigatoriedade, mas me sinto extremamente humilhado. Isso é normal?

      Não.

      Veja só: existe uma infinidade de explicações possíveis pra você não ter entregue um exercício (se não entregar vários, as explicações diminuem, mas vamos por partes). Você não teve tempo. Esqueceu. Ele era difícil demais. Fez mas esqueceu de levar. Te roubaram a mochila. Ou simplesmente não quis fazer e pronto, se valia nota você arca com o prejuízo.

      Existe também uma infinidade de reações que o professor pode ter: ali, na classe, ele pode nem notar. Ele pode notar e não dizer nada, porque não é importante. Ele pode notar, mas dizer algo de boa.

      E ainda é pouco provável que ele vá dizer alguma coisa ali no restaurante, porque, vamos ser sinceros, na hora do almoço a gente só pensa em uma coisa: O que será que a Celine Dion está fazendo neste momento?

      E mesmo que o professor ache ruim, o que ele vai fazer, além de nada (se o exercício não valer nota), ou deixar de ter dar um ponto, ou talvez estender o prazo? Te dar um soco? Gritar com você? Te reprovar na matéria, por causa de um exercício? Te expulsar da faculdade?

      E mesmo que ele faça todas essas coisas: *você* pode nem ligar, porque se acontecer algo absurdo como ser expulso da faculdade, você pode entrar em outra, ou abrir uma startup e ficar milionário, whatever.

      Onde eu quero chegar é: existem infinitos resultados possíveis a partir do fato inicial de você não entregar um exercício. Mas, muito provavelmente, você está preso a uma linha de pensamento que assume sempre, a cada bifurcação, o pior caminho possível (por exemplo: o professor *vai* perceber que eu não entreguei, e *vai* ficar puto comigo, e *vai* falar em voz alta na frente da sala toda, e eu *vou* ter um ataque de pânico, e....).

      Essa distorção cognitiva não é normal. E é mais grave quanto mais ela afetar o seu dia-a-dia.

      E isso tudo sem nem entrar no assunto de porque, exatamente, você não fez o exercício, e com que frequência isso acontece. Será que tem algo aí também? Procrastinação? TOC? Depressão?

      Enfim. Se isso acontecer com frequência, seria muito bom você consultar um psicólogo.

    7. Tenho paranoia e pensamentos intrusivos a respeito da minha ex-namorada. Tem medicamento pra controlar isso?

      Tenho paranóia e pensamentos intrusivos a respeito da minha ex namorada, Marcel. Chego a passar o dia TODO pensando, projetando e fantasiando a respeito dela. Tem medicamento pra controlar isso? Tô perdendo a cabeça.

      Tem. Mas...

      Os médicos recomendam que as pessoas não tomem analgésico pra qualquer dor de cabeça, porque isso tende a baixar o limiar da dor, ou seja: fazer com que, para a mesma causa, a sensação de dor aumente, e isso cria um ciclo vicioso de dependência do remédio.

      É a mesma coisa aqui. Vá correr uma maratona, vá ler Guerra e Paz, vá jogar Mario Kart 8.

      Remédio psiquiátrico não é pra esquecer a namorada. Terminar namoro e sofrer com isso por uns meses, e repetir o processo duas, três vezes, pra ganhar experiência e entender por todos os ângulos o que é um relacionamento, faz parte desse lance que é viver a vida, e terminar essa jornada aqui uma pessoa melhor do que começou.

    8. Existe algum exercício em que fingimos não existir outras pessoas para podermos descobrir nossas prioridades? Ou seja, só eu importo, vou fazer apenas o que me interessa e satisfazer todas as minhas vontades.

      Existe algum exercício psicológico em que fingimos não existir outras pessoas para podermos descobrir nossas prioridades? Ou seja, só eu importo, vou fazer apenas o que me interessa e satisfazer todas as minhas vontades.

      Não. Inclusive, o nome disso é sociopatia.

      O ser humano é um animal social. Conviver com o outro e levar as necessidades dele em consideração, usar ele como um espelho, como um termômetro pra avaliar as nossas próprias atitudes, é meio que uma exigência da vida emocionalmente saudável.

      Agora, o equilíbrio entre as suas necessidades e interesses e as dos outros é sempre uma corda bamba, sobre a qual temos que aprender a caminhar.

    9. Eu namoro há quatro meses e está sendo a melhor coisa da minha vida. No entanto, o tesão comum por outras pessoas nunca cessou. O que fazer?

      Eu namoro há quatro meses e está sendo a melhor coisa da minha vida. Sinto não só uma profunda atração sexual, como há uma sintonia de valores, sentimentos e comportamentos um com o outro. Nunca passei por algo assim. No entanto, o tesão comum por outras pessoas que conheço nunca cessou. Queria saber controlar, não gosto desse desejo enorme por tanta gente, quando tenho alguém por quem meu desejo é ainda maior e em quem encontro tantas outras coisas boas além do desejo. O que fazer?

      Nós procuramos muitas coisas, como uma carreira, um relacionamento, mudança de cidade ou de país, achando que vão mudar a nossa vida e que quando conseguirmos isso tudo vai ser diferente.

      E esses acontecimentos mudam muita coisa mesmo, mas não mudam o ser humano, a pessoa que nós somos. Por que você achava que, estando namorando, iria deixar de sentir atração por outras pessoas?

      A atração é instintiva. O namoro é uma escolha. São duas dimensões diferentes.

      A fidelidade só é uma virtude porque não é obrigatória, porque ela é exercida conscientemente. Se você deixasse de olhar, de sentir atração por outras pessoas automaticamente assim que entrasse num relacionamento, a fidelidade não teria valor nenhum. É justamente porque nós escolhemos nos manter fieis, apesar da nossa natureza, que existe valor nisso. É justamente porque o namoro *não* é algo transcedental que o esforço em fazer ele dar certo é importante.

      Então, a primeira coisa que você tem que fazer é aceitar que a atração por outras pessoas que não são seu par existe, sempre existiu, e sempre vai existir. Faz parte do ser que você é, e você precisa conviver com isso. Precisa entender que sentir atração é uma coisa natural e normal. Tem a ver inclusive com a nossa capacidade de apreciação estética, de apreciação da arte. Agir com base nessa atração é que é errado. Essa confusão na nossa cabeça existe por causa dos fundamentos religiosos da sociedade, a ideia de sexualidade e de "tentação" como algo demoníaco, ao invés de natural.

      Depois, você precisa aceitar que o namoro é uma escolha, que envolve dedicação pra dar certo. Não é um lance mágico. É como os estudos e o trabalho, em que você tem que acordar cedo, faça calor, frio ou chuva, e fazer o que tem que ser feito. Por que? Porque vale a pena (...quando vale a pena, claro).

      Desmistificando os dois lados da questão, perdendo essa noção, *ahem*, romântica de que o amor é mágico e muda tudo instantaneamente na sua vida, e essa noção de que você deixa de ter instintos quando se apaixona, de que tem controle não só sobre seus atos, mas também sobre sua percepção e impressões do mundo, a coisa fica bem mais fácil.

    10. Não consigo fazer amizades. Já estou na faculdade e mal converso com as pessoas, e não vejo como poderia me tornar extrovertido.

      Não consigo fazer amizades, Marcel. Já estou na faculdade e nada. Mal converso com as pessoas, e não vejo como poderia me tornar extrovertido, visto que minha personalidade já está formada. Estou triste, mas quando penso em ter amigos também fico entediado.

      Calma lá. Tem coisas na nossa personalidade que são difíceis de mudar, mesmo. Mas ser capaz de interagir com outras pessoas, fazer amizades, em alguma medida está sempre ao nosso alcance. Você não precisa se tornar extrovertido, precisa se livrar dos problemas psicológicos que tiver e descobrir em quais situações se sente confortável, com quais tipos de pessoa.

      Eu só fui me tratar da depressão e da fobia social depois que entrei na faculdade, também. Hoje sou bem mais confiante, mas não sou exatamente extrovertido, nem sinto a necessidade de ser. Não gosto de lugares barulhentos, cheios de gente, e não tenho nenhum problema com isso.

      O que eu te recomendo é que procure as atividades que te interessam, que te absorvam, te deem prazer. Tenha ambições acadêmicas, profissionais. Assim, você vai acabar encontrando mais pessoas que tenham a ver com você.

      E procure um terapeuta. É muito difícil se livrar sozinho dos hábitos de pensamento, das questões emocionais que provavelmente te trouxeram a esse ponto, e que foram aprendidos ao longo da sua vida.

    11. Sair do armário ou não? Vivo no interior e meus pais são meio conservadores. Tenho até medo de ser espancado pelo meu pai.

      Sair do armário ou não? Vivo no interior e meus pais são meio conservadores. Tenho até medo de ser espancado pelo meu pai, caso conte. Não sei se adiantaria muito ir a um psicólogo, porque isso não mudaria o meio em que vivo, eu ainda correria os mesmos riscos. Tenho quase 30 anos, e ninguém sabe.

      Idealmente, é claro que você sairia do armário, para os seus pais e pra todo mundo.

      Mas eu sei que o ideal nem sempre é possível. Eu enxergo o seu caso mais ou menos como o de uma pessoa que tem um emprego e uma vida estáveis, mas lá no fundo sabe que a sua vocação está numa atividade completamente diferente.

      O que ela faz, joga tudo pro alto e corre todos os riscos envolvidos com dar uma grande guinada na vida, ou fica onde está e corre o risco de se arrepender por nunca ter tentado?

      ...geralmente é assim que nós pensamos, essa é a única escolha que achamos que temos, certo? É o que aparece em propaganda de banco, de faculdade, de margarina.

      Mas a escolha, dessa pessoa e a sua, não precisa ser assim, 8 ou 80.

      Existem inúmeras combinações intermediárias e caminhos que você pode percorrer. Seus pais não precisam saber logo de cara. Se não forem pessoas exatamente razoáveis, não precisam ficar sabendo nunca. Você mora com eles? Como é a sua cidade? Como é sua vida social? E profissional? É ambicioso, tem hobbies, costuma viajar? Pretende ficar o resto da vida no interior ou tem planos para ir embora?

      Se você se vê preso, se não enxerga saída, ir ao psicólogo faria diferença, sim. Porque a lógica desse problema é como a de muitos outros que aparecem na clínica, e não é raro o paciente acabar descobrindo que tinha a resposta bem na sua frente o tempo todo, ele só não soube enxergar isso por estar preso a padrões de comportamento determinados por crenças irracionais.

    12. Sou homossexual, criado em família católica, mas a religião ainda me assombra. Como deixo isso de lado?

      Marcel, tudo bem? Eu sou homossexual cara, pois é. Gosto de homens. Fui criado em uma família católica, eu ia muito à igreja até depois de me formar. Veio a leitura de certos céticos clássicos, um pouco de conhecimento em ciências naturais, ler um pouco sobre histórias da religião, nada aprofundado, enfim... Minhas reflexões hoje em dia fazem com que seja agnóstico, um pouco pendendo para um deísmo talvez, enfim... Não acredito em um deus pessoal nos moldes das religiões tradicionais. Mas às vezes do nada bate uma dúvida bem íntima... E se? Ora, não quero ir por inferno, lol, e às vezes me sinto afetado lendo um ou outro comentário sobre o destino final das almas que não aceitaram a Deus, ou de como o homossexual que se relaciona com alguém do mesmo sexo é uma aberração ou algo do tipo. Freqüento até alguns asks aqui, tirando dúvidas. Como deixo isso de lado?

      Esses comentários, você encontra eles sem querer, ou vai atrás por vontade própria?

      E as perguntas no Ask são sobre doutrina religiosa?

      A sua situação é como o fim de um namoro tumultuado. Quando termina a relação (no caso, a sua relação com o catolicismo), o ideal é bloquear, dar unfollow, parar de pensar no outro e de ficar indo atrás pra ver como ele anda. Com o tempo, se tiver um perfil emocional saudável, você reestrutura seus hábitos comportamentais e cognitivos, deixando de lado os antigos e criando novos, mais bem-adaptados pra sua vida presente.

      No caso, os hábitos antigos são esses sentimentos de culpa que a religião nos faz internalizar.

      É um bom sinal que você consiga falar abertamente sobre essa sua ansiedade, que ela esteja acessível pra você. Talvez isso indique que, com um pouco de paciência e auto-controle, você consiga deixar de lado essa curiosidade mórbida, ficar indo atrás de sites e comentários que te fazem mal, e o problema suma sozinho.

      Por outro lado, a verdade é que o inferno assombra as pessoas não por existir de verdade, mas por causa do contexto em que ele nos é apresentado, por pessoas de confiança, como parte da nossa educação no período muito sensível que é a nossa infância, numa narrativa moralizante e prescritivista.

      Então, mesmo que você se livre racionalmente dessa influência, é possível que ela permaneça viva no seu íntimo, por mil razões diferentes. E aí, recomendo que você leia mais sobre Religião Comparada (pra te dar perspectiva histórica, você perceber que a sua antiga religião é só mais uma entre outras, com crenças relativamente arbitrárias), leia críticas às religiões (um livro sensacional é o "When Prophecy Fails"), converse sobre isso com seus amigos (o processo de articular essas emoções, colocando elas pra fora e recebendo feedback, sempre ajuda), ou, em última instância, se te perturbar demais, procure terapia, mesmo.

    13. É normal perder a virgindade, sendo homem, com quase 30 anos?

      É normal perder a virgindade, sendo homem, com quase 30 anos?

      Normal, estatisticamente, não muito.

      Normal, no sentido de ser algo que possa fazer parte do curso da vida de uma pessoa saudável, produtiva, sim, totalmente.

    14. É normal um pessoa aos 17 anos não se sentir pronta pra ter um relacionamento ou mesmo uma aproximação afetiva?

      É normal um pessoa aos 17 anos não se sentir pronta pra ter um relacionamento ou mesmo uma aproximaçao afetiva?

      Sim.

      Inclusive porque as pessoas, nessa idade, não se relacionam só porque se sentem "prontas", mas muitas vezes porque a curiosidade, a pressão social, ou o calor do momento falam mais forte.

      Mas se você descobrir que gosta pra valer de alguém, vale a pena arriscar. É assim que a vida funciona, às vezes você só descobre se é capaz se der um passinho à frente, mesmo com frio na barriga.

    15. Eu sofria bullying na escola, e acabei saindo no segundo ano do ensino médio. Penso em voltar a me tratar e a estudar, será que consigo?

      Eu sofria bullying na escola, e acabei saindo no segundo ano do ensino médio, parei o tratamento pra depressão e me afundei cada vez mais, agora to com 20 anos já, tu acha que ainda tenho salvação? Penso em voltar a me tratar e estudar, tentar entra numa faculdade etc... tu acha que pode funcionar?

      Tem, sim. É claro que tem.

      Nós somos levados a encarar a vida como uma espécie de linha de produção. Temos que passar tantos anos na escola, depois passamos tantos anos na faculdade, depois saímos e vamos trabalhar, nos casamos, temos filhos, cada uma dessas coisas na sequência e na hora certa.

      Mas as coisas não precisam ser desse jeito. Escolher uma carreira com 17, 18 anos, está longe de ser o ideal, por isso tanta gente acaba trocando depois. E a vida é imprevisível. Acidente, doença, mudança de cidade, problemas de família, problemas psicológicos, acabam nos tirando desse trajeto que todos ouvem e repetem que precisamos seguir.

      E quando saímos desse trajeto, é muito comum que faltem referências pra nos guiarmos. Aí, é preciso coragem pra construir nosso próprio caminho.

      Você realmente deveria voltar pro tratamento. E sim, complete os estudos, e se for o que você quer, vá fazer faculdade. Não é tarde, não é impossível, não é esquisito. Tanta gente fica anos no cursinho tentando entrar na faculdade que quer, ou larga a faculdade pela metade pra mudar de curso. Ou larga de emprego pra começar tudo de novo em outra carreira. Ou termina um longo namoro ou um casamento que parecia tão estável e que imaginava ser pra vida toda.

      Você vai estar construindo o seu próprio caminho. As pessoas, a nossa cultura, a nossa sociedade, não oferecem muitos pontos de referência pra quem faz isso. Eu passei por essa mesma situação, várias vezes.

      No final disso tudo, quando estabilizar e se encontrar de novo, você vai ser uma pessoa mais forte e mais experiente, e isso vai te ajudar muito em outros aspectos da vida.

    16. Tenho muito medo de conversar com alguma alguma garota de quem eu goste muito, mas fico confiante se o interesse for só sexual.

      Marcel, se eu me aproximar de alguma garota que eu goste muito, fico com muito medo de conversar com ela, chego a suar frio, mas se for alguma garota que eu só tinha interesse sexual eu fico muito confiante. Mas tenho MUITO medo que as pessoas descubram meus relacionamentos. Por que isso? uma fobia?

      O relacionamento que envolve não só atração física, mas também emoções, personalidade, gostos, expectativas, precisa de abertura, espontaneidade, portanto deixa as pessoas muito mais expostas, tanto a experiências boas quanto, se o relacionamento não der certo, a experiências ruins.

      Então... uma possibilidade, entre várias outras, é que essa sua dificuldade quando se aproxima de alguém de quem gosta seja pela necessidade de se expor a ela, e se expondo acabar sofrendo. Existem muitas pessoas que estão sempre preparadas para o pior, preparadas para as coisas darem errado, mas nunca para a possibilidade das coisas darem certo.

      Então, elas protegem suas emoções, para não sofrerem, mas com isso se privam das boas experiências. E se privam também do amadurecimento, de aprenderem do que gostam, do que esperam dos outros e de si mesmos.

      Um resultado é esse que você disse. É mais fácil se envolver com outra pessoa quando você, logo de cara, determina limites: por exemplo, é só sexo, ou é só amizade, etc.

    17. Como mitigar o comportamento passivo-agressivo?

      Poderia dar umas dicas de como mitigar um comportamento passivo-agressivo? Fui na wikipédia, mas a página só informa, só fala de terapias, mas não de como elas ajudam.

      Todo comportamento tem um contexto, uma história de aprendizado e reforçamento, e sem conhecer essas coisas não dá pra lidar com ele, não existe uma receitinha pronta que se aplique a todos os casos.

      Por exemplo, o comportamento é seu ou de outra pessoa? Se for de outra, qual a sua relação com ela?

      Comportamento passivo-agressivo pode ser desde pessoas mandando ~indiretas~ nas redes sociais até um cônjuge sistematicamente, sei lá, indo pra cama antes ou depois de você pra evitar intimidade ou sexo.

      É uma forma de hostilidade e controle do comportamento do outro, que provoca confusão, frustração, agressividade, até imitação, quando o outro também passa a ser passivo-agressivo. É destrutivo, claro. Na posição de pessoa que percebe isso, a sua função é romper esse ciclo de destrutividade, no mínimo não reciprocando o comportamento, talvez encarando a pessoa de frente e perguntando se tem algo errado, dizendo que você notou que tem algo diferente, mas sempre mantendo a compostura, o senso de humor, determinando você o tom da conversa. E dando espaço pra pessoa reformular sua postura, nunca a acuando.

      Sun Tzu disse algo sobre nunca deixar o oponente sem uma opção de saída honrada, é por aí.

    18. Sempre me preocupo com coisas tipo "será que sou viciado em chocolate?", "será que sou viciado em procrastinar?" Isso é normal?

      Marcel eu sempre me preocupo com coisas tipo "sera que sou viciado em chocolate?", "sera que sou viciado em procrastinar?", "sera q sou viciado em porn?". Isso é normal? O q isso indica?

      É normal até o ponto em que se torna algo obsessivo, que te distrai, te atrapalha de alguma maneira.

      Ser "normal" não significa ser livre de pensamentos desagradáveis. Significa só que eles estão sob controle.

    19. Passei em um concurso que me deu um emprego muito bem remunerado, mas em outra cidade, e estou muito angustiado.

      Sou mestrando em filosofia e passei em um concurso que me deu um emprego muito bem remunerado. É para dar aulas. Porém, vou mudar de cidade. Tô com o coração super apertado. Há tempos não me sentia assim. Tô angustiado. Muito medo de isso não a escolha melhor para a minha vida. Tenho medo de que inúmeras coisas deem errado, a saber, eu não ser um bom professor, fazer as coisas erradas, ser hostilizado na cidade, no campus, ter problemas de saúde, e por aí vai. :(

      Bom... num certo sentido, toda nossa segurança de que as coisas vão dar certo no futuro é uma ilusão. Isso tudo que você disse pode acontecer, mesmo.

      Mas existem dois tipos de segurança: o de que as coisas vão dar certo, e o de que, não importa o que aconteça, nós não vamos desmoronar emocionalmente, vamos ser capazes de lidar com qualquer situação que se apresente diante de nós.

      E me parece que a sua preocupação é mais com a segunda opção do que com a primeira. Porque, veja... as coisas de vez em quando dão errado. Nós nos abalamos momentaneamente, mas sobrevivemos e seguimos em frente.

      Mas se você duvida de si mesmo, tudo parece ameaçador, toda possibilidade de revés ganha dimensões intransponíveis.

      E, mais importante, você perde a perspectiva, passa a enxergar tudo em absolutos.

      Por exemplo, o lance de você "não ser um bom professor". Essas coisas não são, assim, binárias, preto e branco. Suas primeiras aulas podem não ser nenhuma maravilha, mas se você tomar alguns cuidados básicos na preparação do conteúdo, dificilmente vão ser uma tragédia. E os alunos não são algozes cruéis, a verdade é que as pessoas dão um desconto enorme pra esse tipo de performance, dependendo tanto de simpatia, carisma pessoal, quanto de capacidade didática. Você pode começar com alguma dificuldade, aquém do que gostaria, mas melhorar com o tempo. Ou talvez o que você considera ruim, outros considerem muito bom.

      Onde eu quero chegar é: na sua cabeça, cada uma dessas situações parece estar seguindo o pior trajeto possível, resultando em alguma catástrofe, entre os infinitos trajetos que existem na vida real, como o de tudo correr normalmente, ou até de ter resultados acima da média. Você só não está enxergando que existem várias possibilidades.

      Dependendo de quão grave, quão paralisante for esse seu medo, é só questão de você respirar fundo e ir em frente, se for algo que dê pra lidar, ou então você deveria procurar ajuda psicológica, se interferir mesmo na sua vida, nas suas decisões.

      Por via das dúvidas, eu acho que seria legal você procurar o plantão psicológico em alguma clínica-escola por aí, ou na sua cidade nova, pra falar mais sobre isso. Depois, se for o caso, eles podem te encaminhar pra terapia.

    20. O que faço para me tornar uma pessoa mais empática?

      O que faço para me tornar uma pessoa mais empática, Marcel? Só me vejo sempre como prioridade.

      Em assuntos como esse, a questão não é ser, mas fazer, praticar.

      Uma vez, quando eu atendia na clínica da USP, uma colega saiu da sua sessão e veio falar comigo. O paciente tinha feito alguns comentários inapropriados sobre as pernas dela, e apesar de ter continuado a sessão normalmente até o fim, ela ficou bem abalada depois.

      Meu primeiro impulso foi notar que ela estava usando uma saia com fenda bem alta, contrário a todas as recomendações que os professores davam pra gente. Mas eu notei que ela ia começar a chorar, então não disse nada e, meio sem jeito, dei um abraço.

      Ela soluçou por uns segundos, assoou o nariz no meu ombro, se restabeleceu, e me agradeceu. O que ela precisava naquele momento não era ser lembrada da saia, mas só de acolhimento. A questão prática podia esperar, afinal é pra isso que serve a supervisão semanal dos professores.

      Se eu tivesse falado da saia, estaria só satisfazendo o meu impulso egoísta de tratar o problema como algo técnico, impessoal. Não estaria levando em consideração a necessidade dela.

      Então, a empatia, naquela e na maioria das situações, é um modo de agir. Você interrompe o seu processo de fazer o que faria automaticamente, e presta atenção na necessidade do outro, se coloca no lugar dele.

      Prefiro expor as coisas nesses termos, porque falar em "ser empático" dá a impressão de que é um estado automático e passivo, algo que existe independente do que você faça.

      Já "praticar empatia" indica que é algo ativo, que precisa de atenção e iniciativa.

    21. Como uma pessoa tímida e insegura pode apresentar bem um seminário?

      Por favor! me dê dicas de como apresentar bem um seminário, sou muito tímida e insegura...não consigo apresentar sem ser lendo, estou mto triste e ansiosa! :((

      A coisa mais importante é você se familiarizar com o conteúdo. Escreva um roteiro com tudo o que você vai falar, palavra por palavra, e ensaie a apresentação mais de uma vez. Assim, vai estar eliminando uma grande fonte de ansiedade, que é não saber o que vai acontecer quando tiver que falar.

      Apresentar lendo não é nenhum crime, principalmente na escola ou na faculdade. Mas, se quiser fazer diferente, ainda ensaiando, tente ler o seu roteiro, entender o que ele significa, e dizer com as suas próprias palavras. Se coloque no lugar do espectador, o que você pode dizer pra ajudar ele a entender o assunto? Dê exemplos, use metáforas, faça ligações com outros assuntos. Assim, na hora da apresentação, talvez você consiga só bater o olho no tópico e falar sem ler. Mas não se force a isso, é algo que vem com a prática de falar em público.

      Outra fonte de ansiedade comum é a catastrofização, você ficar remoendo na cabeça tudo o que acha que pode dar errado. A verdade é que as coisas nunca dão muito errado. A plateia não é um inimigo, eles não estão assistindo determinados a te julgar negativamente. Pelo contrário, costumam ser muito solidários ao nervosismo de quem apresenta. Fale olhando na direção das pessoas.

      Em algum momento do dia, faça uns exercícios de aquecimento pra soltar a voz.

      Quando for chegando a hora, um exercício pra controlar a ansiedade é esse: inspire fundo e lentamente pelo nariz, e expire três vezes mais lentamente pela boca, por uma fresta bem pequena entre os lábios. Se concentre na respiração, na sensação do ar saindo e entrando, pense apenas nisso. Faça durante uns cinco minutos.

      E, bom, acho que é isso. Boa sorte.




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